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Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

José Correia é fundador e dirigente da J'Océane, uma das principais sociedades de comércio grossista de produtos do mar estabelecidos no Mercado de Rungis, o maior mercado de abastecimento do mundo, que fornece toda a região parisiense. Realizando um volume de negócios anual de 70 milhões de Euros , este português de Braga contou à CCIFP o seu percurso e partilhou a sua visão sobre o passado, o presente e o futuro de um sector internacional por excelência, e intimamente ligado a algo que marca toda a história portuguesa : o mar.


Como é da praxe neste nosso espaço, pedir-lhe-ia que nos desse um breve apanhado do seu percurso ...

Eu sou originário de São Pedro de Merelim, nos arredores de Braga (em Portugal), e vim cá para França com os meus pais em 1969. Tinha eu então 11 anos. Não vivíamos mal em Portugal, o meu pai representava uma empresa de fabrico e comercialização de material para casas de banho. Mas havia um irmão da minha mãe que morava na Côte d’Azur, emigrado para fugir à Guerra do Ultramar, e o meu pai veio juntar-se a ele. Depois, instalou-se em Paris, passou a trabalhar na reparação de elevadores, e trouxe-me a mim, os meus três irmãos e a minha mãe. A partir daí, vivemos em Pantin, nos arredores de Paris, depois em Paris-cidade, para depois nos instalarmos em Vitry-sur-Seine.

Depois da escola fiz uma formação em contabilidade, e depois encontrei trabalho, justamente como contabilista numa chocolataria artesanal, onde estive durante cinco anos. A seguir, eu responderia a um anúncio de emprego no Figaro, que me levaria a trabalhar numa pequena empresa de comércio grossista em Rungis no sector do peixe e frutos do mar, que me contratou. Aí fiquei seis anos, o tempo suficiente para que o nosso volume de negócios aumentasse 20 vezes.


Foi então aí o seu primeiro contacto com o sector onde hoje opera. O que fez com que essa empresa tivesse um tal crescimento então?

Como éramos uma pequena empresa, eu comecei por fazer contabilidade, mas rapidamente me foram sendo passadas outras responsabilidades. E entre estas, passei a fazer “sourcing”, isto é, a tratar da procura de novas fontes de abastecimento de mercadoria em novos mercados. Um deles foi justamente Portugal, que fez com que eu fosse o primeiro importador de peixe em Portugal para a Europa, numa altura em que as costas portuguesas estavam bem abastecidas, por exemplo de tamboril e de peixe-galo. O nosso país não estava ainda na Comunidade Europeia, as barreiras alfandegárias eram importantes, e a França também não tinha o costume de importar peixe de Portugal. Também importei de Cabo Verde, nomeadamente lagosta.


Quando é que criou a J’Océane?

Foi por inícios de 1991, quando decidi lançar-me à aventura de criar o meu próprio negócio no sector. Como penso que acontece com qualquer nova empresa feita de raiz, os primeiros tempos não foram nada fáceis, até porque eu estava completamente sozinho. Eu, que na minha anterior empresa usava fato e gravava para fazer as minhas coisas no escritório, deixei de o fazer para poder ir buscar a mercadoria em Orly em voos da TAP. Tive de conhecer espécies de peixe que eu nunca tinha visto na vida, tinha de passar noites no frio a revender o peixe em Rungis, ou num pequeno automóvel utilitário directamente nos restaurantes… Durante esse tempo, em que eu dormia pouco mais de três horas por dia no meu escritório. Fazia tudo e durante um ano não tive salário, e depois durante cinco anos, ganhei o equivalente ao salário mínimo. Tudo para conseguir garantir um mínimo de tesouraria para o negócio.

 


 

Era difícil de obter financiamento para o seu negócio nesses primeiros tempos?

Eu costumo dizer ainda hoje, com algum humor e sem nenhum sentido pejorativo, que eu sou e continuarei a ser um “contabilistazinho”. Quando tenho algum dinheiro no banco, eu trato sempre prioritariamente de não ter dívidas com os meus fornecedores e só depois penso em investir em comprar um novo espaço de trabalho, por exemplo, ou uma nova máquina de gelo ou de vácuo. Sou adepto de uma estratégia de crescimento incremental, passo a passo, e penso que foi assim que a J’Océane pôde ter um crescimento sustentado durante os seus quase 20 anos de existência. Entretanto, mesmo quando estava sozinho, adoptei desde logo a forma jurídica de sociedade anónima, para ter a confiança dos bancos e das seguradoras.

Pensa que o sector da grande distribuição de peixe é um negócio particularmente arriscado?
Eu penso que sim, porque a urgência é uma realidade constante neste negócio. Assim que o peixe é recebido, temos no máximo 48 horas para o revender. Caso contrário, deixa de estar em boas condições, e perde valor. Nós aprendemos a viver com uma certa incerteza quando se trata de saber se o cliente vai comprar ou não o nosso produto. Se ao fim desse período de dois dias, não vendermos o peixe rapidamente, o mercado “mexe” e o comprador pode encontrar um preço melhor. Nesses casos, a flexibilidade de negociação é fundamental, e é muito habitual que nesses casos tenhamos de baixar o preço e perder dinheiro na operação.


Quase 20 anos depois, a J’Océane faz cerca de 70 milhões de Euros por ano, e já planeia duplicar este valor com a aquisição de uma outra empresa do ramo. Este sector estará certamente muito mais concentrado do que antes…

Sim, sem dúvida. Apenas acrescento um ponto importante no que respeita ao nosso crescimento: no último ano o crescimento do nosso volume de negócios, de quase 40%, foi orgânico. Não resultou de nenhuma aquisição. A isso deveu-se, a meu ver, não apenas a qualidade das pessoas que eu tenho conseguido recrutar na empresa – muitos  das quais portuguesas! – mas também à estruturação que elaborámos no nosso negócio: uma dezena de centros de lucro, cujos líderes de equipa se encarregam de se auto-financiar e, assim, de apresentar resultados em permanência. Estas equipas atacaram com muita força os restaurantes parisienses durante o último ano, japoneses e franceses, que hoje confiam plenamente no nosso produto.


Pensa que, no contexto actual, conseguiria criar a sua empresa de raiz, como o fez há quase 20 anos atrás?

Não, isso não seria possível. Esta tendência para a concentração do mercado dos grossistas de peixe, não é por acaso. Por um lado, tem-se vindo a sentir ao longo dos anos um peso cada vez maior da legislação comunitária e nacional no sector que representam custos acrescidos importantes para os pequenos operadores. Um exemplo é a obrigação de traçabilidade da mercadoria. Por exemplo, se eu compro peixe pescado a 10 000 km de França, eu devo ser capaz de apresentar a todo o momento um registo informático de cada ponto de passagem do produto, até ao nome do navio que o pescou. Esta origem do produto aparece nas próprias paletes de peixe, o que faz com que o comprador possa a todo o momento pedir informações mais específicas sobre o fornecedor.


Quer dizer que os avanços tecnológicos no sector vieram por um lado facilitar, e por outro lado tornar mais complexo o vosso trabalho?

Exactamente. O desenvolvimento de todas as novas tecnologias de informação e de comunicação vieram tornar as coisas muito mais transparentes, mas igualmente muito mais desumanizadas no sector. Há vinte anos, a palavra dada, as relações humanas, a confiança tinham muito mais importância neste negócio do que hoje. Lembre-se por exemplo de que não havia telemóveis, imagine como era. Hoje, com a Internet, por exemplo, um comprador pode informar-se a todo o momento da evolução minuto a minuto do preço do produto, esteja ele onde estiver, e assim ligar-me e dizer que ele viu que há quem venda o produto mais barato e assim forçar-me de repente a baixar o preço.


Quais são hoje os principais concorrentes da J’Océane?

Existe apenas um verdadeiro concorrente, mas que na verdade também é muito diferente da nossa empresa. Trata-se de um grande grupo, não uma empresa de dimensão familiar como a J’Océane, e também trabalha de maneira diferente. Nós estamos abertos 24 horas sobre 24, eles não. Por outro lado, e ao contrário deles, nós, para além dos compradores que vêm a Rungis, também trabalhamos muito com as centrais de compras de supermercados. Entretanto, a nossa dimensão também está em vias de explodir durante os próximos anos, como já referiu. Além disso, há grupos com quem temos parcerias e que fornecemos aqui em Paris, e que começam a espalhar franchisings por toda a França: Nice, Lyon, Nantes, Marselha, etc.. Eu penso que é sempre saudável termos uma boa concorrência, até porque nos mantém alerta, mais motivados, e eu acredito que esta motivação também contribui para que a nossa empresa cresça.

 

 


O senhor foi uma das maiores surpresas entre os diversos intervenientes convidados para o Fórum dos Empresários que a CCIFP organizou no passado dia 7 de Maio. Qual tinha sido até então o seu contacto com a comunidade portuguesa em França no âmbito do seu trabalho?


Muito pouco, na verdade, ainda que para além de eu ser 100% português com o maior dos orgulhos, eu tenha actualmente a maioria dos meus colaboradores com afiliação portuguesa, e receba ainda hoje a visita de retalhistas de peixe igualmente portugueses. Mas pouco mais. Esse Fórum, onde me foi dada a oportunidade de contar um pouco da história do meu negócio, ao lado de outros compatriotas, é um evento que deverá continuar a ser organizado todos os anos. Fiz lá contactos muito interessantes, e inclusivamente já pude dar algum apoio a alguns empresários portugueses – de Portugal e de França – naquilo que posso, para desenvolverem o seu negócio. Um exemplo foi um empresário português que monta sistemas de refrigeração, que pus em contacto com a Semmaris, a empresa gestora do Mercado de Rungis.


Pegando nessa deixa, o que pensa da ideia de a CCIFP organizar uma visita guiada ao Mercado de Rungis para empresários seus associados do sector alimentar?
É uma excelente ideia. E eu pessoalmente terei todo o gosto em acolhê-los e em acompanhá-los, numa comitiva encabeçada pelo Presidente da CCIFP. Até deixo uma ideia engraçada para a organização: como os capacetes são obrigatórios para visitantes e compradores, podemos arranjar uns capacetes com o logótipo da CCIFP. Isto facilitará a visibilidade da instituição, visibilidade esta que ela bem merece.

 

Paris, 9 de Agosto de 2010