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Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.
Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
Pascal de Lima é economista-chefe da FSG (Grupo Altran) e professor de economia e finanças no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Nesta entrevista, revela-nos as suas opiniões relativamente ao tão debatido problema das dívidas soberanas de países da Zona Euro (entre os quais Portugal), compiladas no seu livro recentemente publicado sobre o sector da banca, « La stratégie bancaire: entre équité et efficience » (Editions Universitaires Européénnes)
Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
Pascal de Lima é economista-chefe da FSG (Grupo Altran) e professor de economia e finanças no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Nesta entrevista, revela-nos as suas opiniões relativamente ao tão debatido problema das dívidas soberanas de países da Zona Euro (entre os quais Portugal), compiladas no seu livro recentemente publicado sobre o sector da banca, « La stratégie bancaire: entre équité et efficience » (Editions Universitaires Européénnes)
Tenho duas actividades principais. A primeira é a de economista dentro da FSG, a empresa Financial Services & Government do Grupo Altran (17000 funcionários), sociedade de consultoria francesa onde exerço também actividades de pesquisa; e a segunda é uma actividade de ensino no Instituto de Estudos Políticos de Paris, em Microeconomia e Macroeconomia. Nunca vivi em Portugal, e estudei sempre na França. Espero poder fazê-lo um dia, como a minha irmã, por exemplo, que teve a oportunidade de o fazer durante dois anos. O meu pai, esse, partiu muito jovem para a França, e fez parte da primeira vaga de imigração portuguesa para a França, tinha 4 anos quando partiu da região centro de Portugal, do Fundão. A minha mãe, por sua vez, emigrou no fim dos anos 60, e veio da região de Trás-os-Montes.
Em casa falávamos sempre em Francês e, portanto, os meus contactos com a língua portuguesa eram muito pontuais e estavam limitados às férias de Verão como também para muitos luso-descendentes. Foi só no decorrer dos últimos cinco anos que tentei conhecer melhor a língua dos meus pais, e compreender a sociedade portuguesa, para ter uma perspectiva sobre a actualidade e sobretudo para responder melhor às vossas questões. Finalmente para melhor conhecer a França. Porque quando se conhece melhor Portugal também se conhece melhor a França.
Paralelamente à minha actividade profissional, tenho igualmente uma actividade de consultoria económica. Nesse quadro, tenho a meu cargo a pasta « economia », dentro da Federação do Partido Socialista francês no departamento 92 (Hauts-de-Seine); e sou membro do Conselho de Análise Económica de Pierre-Alain Muet, deputado na Assembleia Nacional e membro do conselho económico e social da cidade de Boulogne Billancourt.
No âmbito da sua actividade política, conhece bem Dominique Strauss-Kahn, o actual director-geral do FMI, não é ?
Sim, é verdade. Se bem que tenhamos estado em contacto sobretudo durante os anos em que estive no Observatório Francês de Conjuntura Económica, onde fiz os meus estudos. Depois disso, as nossas ligações diminuíram, sobretudo após ele ter partido para Washington para assumir a direcção do FMI. Mas é preciso dizer a verdade : muitas pessoas conhecem Dominique-Strauss-Khan mas ele próprio provavelmente não as conhece a todas, enfim acho engraçado…-
É então consultor económico num domínio que é capa dos jornais europeus desde há vários meses : o problema de certos países da Zona Euro – entre os quais Portugal – e o consequente risco de incumprimento. Pode-nos explicar, de acordo com a sua perspectiva, qual é a diferença entre o caso de Portugal, por um lado, e os casos da Irlanda e da Grécia ? São similares ou não ?
O problema da Irlanda, até ao momento em que esta solicitou a ajuda internacional, era um problema de insolvência do sistema bancário. Basicamente os bancos tinham emprestado demasiado sem terem realmente verdadeiros procedimentos de gestão rigorosa dos riscos e sobretudo no sector dos serviços financeiros. O caso da Grécia é um caso de alargamento da esfera pública que extrai uma parte da poupança privada, o que os keynesianos chamam de efeito de evicção. Trata-se de um caso de puro endividamento público que foi acompanhado de endividamento privado. O caso de Portugal é um caso de endividamento de agentes privados, ou seja, das sociedades não financeiras e das famílias, o qual também tirou partido da solvabilidade do sistema bancário. Neste momento a situação de Portugal é muito diferente da da Irlanda porque Portugal possui um sector bancário três vezes e meia menos forte que o sector bancário irlandês. Portanto, as margens de manobra são mínimas, se for necessário pensar numa estabilização do sistema.
Agora, há um ponto em comum. Trata-se de três países que têm taxas de crescimento extremamente baixas em comparação com os seus níveis de taxa de juro. Tal quer dizer que são países que não vão poder reembolsar facilmente a sua dívida a longo prazo, a questão sendo a da sustentabilidade do endividamento público. As dívidas, mesmo a Alemanha não as pode reembolsar hoje, trata-se de uma questão de sustentabilidade. À primeira vista, no caso de uma ajuda e devido às margens de manobra existentes, defendo uma ajuda curta e pontual. Mas há que observar mais de perto as perspectivas de crescimento, o aumento da inflação e a diminuição das taxas de juro podendo-se optar em vez disso pela ideia de que Portugal não necessita verdadeiramente de ajuda.
Diz que o problema de Portugal não é um problema com o seu sistema bancário. Com efeito, os bancos portugueses passaram nos testes de esforço da U.E. em Julho de 2010, certo?
Sim. Os testes de esforço tiveram bons resultados para Portugal. Esse país não tinha qualquer banco, de acordo com as hipóteses matemáticas de tais testes, em situação de perigo. Mas Portugal deve apesar de tudo melhorar os seus processos de gestão do risco de incumprimento e estar em conformidade com mais rigor com o Basileia III. A revista Bilatéral da CCIFP mostrou, aliás recentemente num dos seus artigos, precisamente isso. O problema é realmente o endividamento dos agentes não financeiros e das famílias, que está muito acima da média da zona Euro.
Quem tem interesse em que tal situação, o endividamento de agentes e de agentes não financeiros em Portugal, continue ?
Por um lado, os próprios bancos, que têm interesse em que os agentes não financeiros estejam endividados com taxas de juro muito elevadas. Temos em Portugal um mecanismo muito próximo do que desencadeou a crise do subprime nos EUA. Fala-se muito pouco da mesma na imprensa : a mesma surgiu do facto de que as taxas da reserva Federal Americana tinham baixado muito pouco, o que permitiu aos bancos reaprovisionarem-se a um valor não elevado, e proporem créditos imobiliários com taxas extremamente altas. A diferença é que em Portugal se accionaram mecanismos de suporte e de garantia para evitar que os mercados se tornassem desequilibrados, se vendesse em Portugal continuamente, e que tal fizesse explodir os spreads obrigatórios a 5 ou a 10 anos.
Por outro lado, os bancos também têm interesse em ter garantias. É por isso que a solução para Portugal – e a que é proposta pela Senhora Merkel – é a de responsabilizar igualmente os investidores e os banqueiros ao assumirem riscos, e se for o caso debitar uma taxa sobre as actividades financeiras, sobre as transacções financeiras, ou mesmo diminuir o rendimento dos investidores que investem nos bancos e nas sociedades não financeiras a uma taxa de juro muito elevada. O objectivo seria alimentar o Fundo de Estabilidade Financeira, ou mesmo um outro fundo que serviria, se fosse o caso, para diminuir um pouco mais o Fundo de Estabilidade.
Qual a leitura que faz da operação de venda de uma parte da dívida portuguesa a países como a China, que ocorreu recentemente ?
É o mesmo problema que o Fundo de Estabilidade Financeira da U.E., este último cenário, que efectivamente ocorreu recentemente como sabem, não irá infelizmente resolver o problema do endividamento : não estão a fazer mais do que reescalonar para mais tarde certos reembolsos. É um pouco como o consumidor que vai aceitando novos créditos de forma contínua para reembolsar os primeiros créditos. E tal não resolve sobretudo o problema do crescimento, e de saber como Portugal pode conseguir vantagens económicas comparativas para aumentar o seu crescimento ao máximo. No momento tal pode equilibrar os desequilíbrios em termos de crescimento.
Se Portugal decidir seguir a via do recurso ao FMI, o que é que tal provocará na realidade ?
Se não houver reestruturação das dívidas, não se resolve nada, apenas se irá adiar o problema. Irão quitar-se algumas dívidas – aquelas para com os investidores e os banqueiros – e irão criar-se outras para com o FMI, a taxas mais interessantes, com certeza. Mas dever-se-ia precisamente reestruturar a dívida : estendê-la, fazer diminuir as taxas de juro, ou mesmo substituir certas obrigações financeiras por outras obrigações financeiras com condições mais alongadas e taxas mais leves.
A meu ver, a situação consiste mais em proceder presentemente à reestruturação do que apelar ao FMI. Porque como não se tem um crescimento económico suficiente, não se vai ter meios para reembolsar o FMI. Face a este problema, a reestruturação da dívida é a solução.
Penso que não é uma vergonha dizer que Portugal tem necessidade de reestruturar as suas dívidas porque existe um risco de incumprimento. No entanto, se se apelar ao FMI, envia-se um sinal negativo para os mercados financeiros. E isso vai então aumentar a instabilidade sobre a dívida de Portugal para os futuros investidores.
Que comparação faz entre os comportamentos da França e de Portugal face à questão da dívida ?
Muito objectivamente, a França comporta-se melhor que Portugal, economicamente falando. Esta tem taxas de crescimento superiores às suas taxas de juro. Está numa situação próxima de países da zona Euro como a Alemanha, os Países Baixos, a Bélgica, a Áustria. O crescimento é pequeno, mas por exemplo anda à volta de + 1,6%, para 2011 contra – 1,1% para Portugal de acordo com o Estudo do BNP Paribas. Isto faz uma diferença de 2,5% de crescimento, o que é significativo em termos macro-económicos. Tal chama a atenção para as previsões, certas instituições falam já da não recessão de Portugal devido ao facto de haver um novo presidente português, cf mesmo de 1% de possível crescimento em Portugal.
O único ponto em comum que se pode observar entre a França e Portugal é o endividamento público. Aí estão muito próximos. Por outro lado, em termos de endividamento das famílias e das sociedades não financeiras, a França está claramente abaixo, e em termos de crescimento económico, a mesma está claramente acima.
Por fim, um outro ponto negativo da França é que os bancos privados franceses estão ainda bastante expostos em relação aos países periféricos : estes têm obrigações gregas, portuguesas e irlandesas. Isto quer dizer que se um destes três países cair em incumprimento, os bancos franceses podem ficar eventualmente em perigo, uma vez que cerca de 1/5 da carteira são precisamente obrigações destes países . Não obstante, está sob o olhar de desconfiança de 30% dos investidores. Portanto, existe um risco sistémico, mas este actualmente é mais, a meu ver, do lado da Espanha – que não é um país pequeno, que na França durante os próximos três anos.
Actualmente fala-se com bastante frequência de uma saída destes países da zona Euro, pelo menos provisória, como uma solução para o problema da dívida. O que pensa disso ?
Trata-se de uma discussão teórica e polémica, e mesmo os académicos não estão de acordo sobre o papel do Euro. O objectivo de Jacques Delors era facilitar uma integração económica da Europa, através de uma moeda comum. Comum, mas não forçosamente única. Do sucesso do Euro como facilitador da integração económica, pode-se actualmente duvidar. Mas, de certeza, que se pode dizer com legitimidade, que já não é culpa do Euro. A Alemanha é um contra-exemplo das economias periféricas : esta terá um crescimento de cerca de 2,5%, exportando sempre em grande quantidade. Provavelmente o problema não é da moeda comum por si só, mas sim da integração económica para lá da moeda comum.
Porque existem efectivamente diferenças económicas muito importantes entre os países : o direito do trabalho em Portugal, a flexibilidade do mercado de mercado de trabalho na Espanha, as reivindicações sociais na França, a actividade mono-sectorial e mono-financeira na Irlanda. Então, dentro deste quadro, há quem preconize uma saída do Euro de países como Portugal, a Grécia ou a Irlanda, partindo do princípio que desde que as economias europeias sejam realmente diferentes, uma saída do Euro lhes possibilitaria uma recuperação económica através da desvalorização das suas moedas nacionais. Foi o que fizera Portugal em 1992 com o Escudo, por exemplo. Mas em seguida, há toda uma série de custos que vão ser adicionados e que também é necessário avaliar.
Acaba de publicar um livro, « A estratégia bancária: entre a equidade e a eficiência». Qual é a mensagem ou constatação principal desta sua obra ? A quem é que a mesma se dirige ?
O livro dirige-se ao grande público, mas ligeiramente mais ao público especializado em economia financeira, este tenta no mínimo mostrar uma evolução paradoxal do sistema bancário. Com efeito, esse sistema possui uma particularidade que se manifesta pelo regresso de um modelo de organização científica do trabalho de um novo tipo: as tecnologias apelam sempre para mais tecnologias. Com o conjunto dos sistemas de informação integrados, trata-se de um novo sistema que suplanta o precedente.
Mas diferentemente de outras épocas, o período que se inicia é em na sua opinião definitivo, e «ao voltar atrás há o risco de nada aí encontrar», porque a procura permanente da eficiência pela tecnologia é um processo em cadeia e encadeado. A equidade que renasce passaria então por uma melhor compatibilidade da tecnologia com os princípios da mutualização tradicional dos riscos. Mas a tecnologia parece propulsionar uma tendência inevitável para um processo de segmentação-selecção sempre mais restritivo cujos impactos sobre os riscos do sistema poderiam também ir aumentando. Ainda que as probabilidades de ocorrência dos riscos pareçam poder ser controladas... Nesse sentido, parece-lhe difícil não pensar na ideia de uma contribuição dos bancos para essa organização científica de uma relação-cliente de um novo tipo, onde o capitalismo gerado se aprisiona a si mesmo. Com efeito, a razão porque se desenvolve (o reconhecimento social) é precisamente a razão porque falha (o risco do sistema) e faz com que falhem os outros (a exclusão bancária).
Paris, 22 de Fevereiro de 2011
