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Zoom... Antoine Dias

Zoom... Antoine Dias
Zoom... Antoine Dias
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Antoine Dias é co-gerente da boutique Marie-Anne Cantal, uma queijaria de luxo situada em pleno coração do 7.° bairro de Paris, cuja responsabilidade partilha com a sua esposa, que dá o nome ao estabelecimento. A Cantal é actualmente uma das marcas mais respeitadas no sector dos queijos de luxo em França, e conta com uma carteira de clientes dos mais altos estratos da sociedade francesa.

Nesta entrevista, este empresário luso-descendente conta-nos o seu percurso invulgar, e expõe a sua visão sobre um sector de base artesanal que suscita no entanto diversos interesses políticos internacionais em termos da sua legislação.

 

Como tem sido habitual no nosso espaço Zoom, começaria pour pedir-lhe para nos contar um pouco como veio parar aqui, à co-gerência da Cantin.

Muito bem. Ora bem, então eu cheguei a França em 1968, sendo que os meus pais já cá estavam desde há seis anos antes. Mais tarde, eles voltariam definitivamente a Portugal em 1976, pois sentiam-se muito ligados ao país. Eu tinha 13 anos quando cheguei cá, já com os meus estudos de escola primária em Portugal. Lá, eu já tinha começado a minha vida activa, nomeadamente no sector dos móveis: com aquela idade já tinha fabricado a minha primeira cómoda. Por isso, quando cheguei a França, eu não sabia muito bem o que é que ia fazer. Quis o destino que eu começasse então a trabalhar na área dos queijos, vendendo-os nos mercados, ou nas “praças” como também se costuma dizer. Claro está sue nessa altura eu não sabia nada de queijos, poir o queijo não é algo que faça parte da nossa cultura profunda em Portugal.

Foi assim que aprendi pela primera vez as coisas essenciais desta área. Depois mudei, assumi a responsabilidade da secção de frutas e legumes numa loja parisiense na rua Clerc, em pleno 7.° bairro de Paris (um dos mais caros). Lá havia alguns produtos de origem portuguesa, como o chouriço e o bacalhau, que eu vendia sobretudo à nossa clientela da comunidade portuguesa. Foi assim que eu deixei os subúrbios de Paris,  e vim instalar-me difinitivamente na capital. Daqui desta loja, passei para o lado do Campo de Marte, para dirigr duas lojas da Gosselin. Ora, acontecia que em frente a uma dessas lojas estava a a queijaria Cantin, e dentro dela, a Mademoiselle Cantin (risos). E pronto, conhecemo-nos e acabámos por casar-nos da região da Vendeua, na presença das nossas respectivas famílias. Desde então, temos gerido e desenvolvido esta queijaria juntos.


A queijaria Cantin é hoje o fornecedor de alguns ilustres clientes ao nível das mais altas instâncias do Estado francês, como o Eliseu e a Assembleia Nacional... Como conseguiram isto?


Foi por um acaso, que ocorreu nos tempos de François Mitterrand. Os serviços do Eliseu precisavam de se “desenrascar” autenticamente, pois precisavam com urgência de algns tabuleiros de queijo para a viagem oficial do Presidente da República à ilha de Guadalupe, nas Antilhas francesas. Estávamos então em 1984 ou 1985, já não me lembro exactamente em que ano. E quando Mitterrand voltou à metrópole, consta que ele chamou o seu assistente – foi este mesmo que nos disse – e ter-lhe-á dito “Bom, se é preciso eu ir à ilha de Guadalupe para comer bom Camembert...” Claro está que o assistente não se sentiu muito confortável com a situação. A partir daí, tornámo-nos fornecedores acreditados do Eliseu. Depois, o passa-palavra passou, e fomos alargando a nossa rede de conntactos comerciais a esse nível.



 

O sector da “fromagerie” de luxo, sofreu ou não com a tão conhecida crise económica de 2008-2009?

Nem por isso, aliás como todos os produtos alimentares de luxo em geral. Porque as pessoas em tempo de crise como aquele que atravessámos, as pessoas querem acima de tudo ter momentos de prazer. E depois, o queijo, significa também convivialidade... penso que foram mais os produtos alimentares de qualidade média que sofreram um pouco talvez com a crise. Mas mesmo entre estes, o queijo terá sofrido menos. Porque, sendo ou não de luxo, o queijo é um produto simples, ecologicamente falando: a sua qualidade eo seu valor dependem da qualidade da alimentação que for dada aos animais que produzem o leite.

Além disso, o queijo não sofre variações sazonais de consumo, ao contrário do que se passa com certos produtos alimentares. Há países que estão a descobrir o queijo, como o Brasil por exemplo. Porque o calor, ao contrário daquilo que se possa por vezes pensar, não tem nada a ver com os hábitos de consumo. No Verão, as pessoas podem optar por um queijo mais leve, um queijo para acompanhar uma salada... mas não deixarão de o consumir por causa da temperatura do ar.


Lançar uma nova marca de queijo em França é difícil? Qual é a melhor maneira de comunicar para quel o quer fazer, a seu ver?


Eu penso que não é muito difícil. Existe a comunicação “paga” – publicidade em jornais, revistas – e há a comunicação “gratuita”,  que  a meu ver é a mais eficaz: o passa-palavra.


O sector do agro-alimentar, em geral é sensível à questão da segurança alimentar, e aos diversos rumores que podem acontecer na imprensa a esse respeito. Exemplo disso foi a crise das “vacas loucas” há alguns anos. O sector dos queijos em França já alguma sofreu um problema do género?

Nos anos 1990, houve de facto um problema com uma bactéria do solo, chamada “listeria”, mas que não foi específica dos queijos. Ela pode afectar a charcutaria, por exemplo. Bom, entretanto importa salientar que o empolamento destas questões tem interesses polítivos por trás, e por detrás destes estão interesses americanos. Os americanos tem lóbis bem implantados em Bruxelas, são muito influentes no seio da Comissão do Codex Alimentarius, o programa comum da FAO e da OMS para a normalização da ssegurança sanitária dos alimentos.

E importa salientar que em termos de tonelagem, os americanos são os maiores produtores mundiais de queijo do mundo. O que eles querem, evidentemente, é entrar nos mercado europeu. Não digo que não tenha havido progressos extraordinários em termos de higiene, e penso mesmo que a França é hoje um país mais preocupado com a higiene na produção alimentar. Mas os americanos não nos dão lições nesse aspecto, pois eles próprios também tiveram vários problemas graves com a listeria.







Quer dizer que essa crise da listeria, teve um impacto positivo sobre as práticas da fileira dos queijos em França, em termos de higiene e de segurança?


Sim, com efeito. Começámos a lavar com mas frequência as queijarias, os locais de produção do queijo propriamente ditos, começámos a lavar as mãos com maior frequência, ganhámos certos reflexos ao evitar de tocar neste ou naquele produto numa ou noutra situação...  Mas isso não deve esconder a problemática de ordem puramente política por trás de toda esta mediatização da crise da listeria. E nesse aspecto a Marie-Anne, enquanto Presidente de uma associação para a defesa do queijo cru, lutou muito juntamente com os seus aderentes. Porque os americanos, através do Codex Alimentarius, queriam que a legislação nos proibisse de fabricar queijo cru. Porque, claro está, eles pasteurizam tudo. A verdade é que não é porque se pasteuriza um queijo que este é mais seguro. Até pode ser mesmo mais perigoso, na medida em que o queijo pasteurizado é desprovido das suas defesas naturais. Se houver um problema com o queijo, o queijo cru auto-destruir-se-á, ao contrário do pasteurizado, que manterá os mesmo aspecto mesmo que já seja impróprio para consumo.


Qual é a sua opinião sobre os produtos alimentares portuguses presentes no mercado francês?

A mim parece-me que, actualmente, eles não estão ainda muito, presentes. Mas eu conheço-os bem, e quando os vejo em Portugal, digo-me a mim mesmo frequentemente que, entre esses produtos, há vários que são muito bons, e que teria certamente o seu lugar em França.

Não creio que seja muito difícel para esses produtos de entrar em França, eplo menos em termos de qualidade. O que é precuso é saber posicionar-se em relação aos produtos da sua região, do seu país, etc.. Mas existe um mercado para esses produtos alimentares em França pois consumí-los n é, no fundo viajar sem sair de casa.


Diversos membros da CCIFP desenvolver a sua actividade no sector agro-alimentar, tanto ao nível de produção como ao nível da distribuição. A seu ver, qual deveria ser a prioridade no nosso trabalho de promoção dos produtos portugueses em França?


Eu penso que se deve insistir antes de mais na promoção strictu sensu. Os produtos portugueses precisam, antes de mais, de ser conhecidos no Hexágono, onde eles não se encontram suficientemente presentes. Tudo começa por aí. E eu estou convencido que a CCIFP tem, de facto, um papel importante que ela deve continuar a assumir neste domínio.

 

Paris, 3 de Fevereiro de 2010