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Zoom... António Alfaiate

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Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

António Alfaiate é o administrador executivo da Associação Industrial Portuguesa - Confederação Empresarial (AIP-CE). Sedeada em Lisboa, constitui uma das confederações empresariais de referência em Portugal. Nesta entrevista, António Alfaiate resume-nos a história da sua institução, explica-nos o seu funcionamento e revela-nos os seus principais desafios face à actual crise económica global. Igualmente e pela primeira vez, expõe publicamente a sua visão sobre o futuro da parceria instituída entre a AIP e a CCIFP desde Junho de 2007.

CCIFP


Como tem sido da praxe neste nosso espaço mensal de entrevista, gostaria de lhe pedir que nos contasse em algumas linhas o seu percurso até chegar à direcção executiva da AIP.

Sou engenheiro químico e fiz também gestão de empresas, e iniciei o meu percurso na função pública, na altura na Direcção-Geral da Indústria. Depois fui requisitado e tive uma experiência na administração de uma empresa do sector privado, antes de voltar para o sector público. Aí, fui chefe de gabinete  do Ministro da Industria e Comércio, fui Director-geral do Comércio Externo e fui Presidente do ICEP. Depois, regressei ao sector privado, mas sempre com a figura de requisição. Portanto, continuo a ser para todos os efeitos um funcionário público, mas já há muito tempo que não trabalho para o Estado.

Estive dois anos como director-geral da Confederação da Indústria Portuguesa, entre 1991-92. Foi a minha primeira experiência associativa. Depois estive seis anos e meio na administração da TAP, até receber em 1999 um convite do Presidente Rocha de Matos para vir para a AIP, o que foi um regresso às lides associativas.


Que instruções lhe foram dadas pelo Presidente Rocha de Matos sobre o que havia para fazer em termos de gestão executiva quando aceitou vir para a AIP?

De acordo com o convite que tive na altura do Presidente Rocha de Matos, a AIP tinha desafios relacionados com o facto de ter crescido muito, nomeadamente com a construção das novas instalações da FIL na zona da Expo 98. Tinha sido encomendado um estudo a um consultor conceituado sobre o modelo de organização da AIP. E as conclusões do estudo apontavam, basicamente, que face ao crescimento da AIP era recomendável que houvesse uma gestão executiva. E foi na sequência das recomendações desse consultor que se criou uma comissão executiva, e eu tive a honra de ser o primeiro responsável executivo da história da AIP nesse novo contexto.


Na altura, a ideia era de facto, assegurar a gestão executiva da associação, que é, diga-se uma associação algo atípica. Normalmente, as associações vivem essencialmente das cotizações dos seus associados. Ao passo que a AIP, pelo facto de ser a proprietária quer da FIL quer do Centro de Congressos, possui dois negócios que constituem a sua principal fonte de receitas. As cotizações dos seus membros são aliás, essencialmente utilizadas para promover o associativismo de base regional.


Especialmente para os membros da CCIFP em França que estão a ler esta entrevista, pode explicar-nos um pouco como se encontra estruturada a AIP?

Antes de mais, a AIP tem 172 anos de idade, foi fundada em 1837, e tem a característica de ser uma associação horizontal, isto é, cobre todos os sectores de actividade. Temos tanto turismo como agricultura, comércio, serviços e a indústria que lhe dá o nome. Por outro lado, conta entre os seus associados tanto empresas como associações. Por termos associações como nossos associados, a AIP assume uma natureza confederativa. Esta foi oficializada recentemente, quando a AIP passou a assumir aquilo que era de facto, uma confederação, passando a ter como nome completo Associação Industrial Portuguesa – Confederação Empresarial (AIP-CE), ainda que continue a ser conhecida apenas como “AIP”.

Nós temos entre os nossos associados, associações quer de natureza sectorial, quer de natureza regional. Nesta matéria a AIP tem aliás responsabilidades, na medida em que impulsionou muito a criação de associações de natureza regional. Na década de 1980, criou na altura 12 delegações regionais da AIP, e que vieram a autonomizar-se, passando a ser associações filiadas na AIP, mantendo as funções de delegação da AIP nos respectivos distritos.


Disse que quando entrou em 1999, tinha-se verificado um crescimento particularmente grande. Ora, a AIP já tem mais de 170 anos. O seu crescimento foi maior na década de 80 do que antes?

Eu diria que em termos de resultados, a passagem das instalações da FIL na Junqueira para a Parque Expo em 1999, representou um salto muito grande. O espaço aqui na Junqueira era muito exíguo, e foi necessário aumentar consideravelmente o espaço e crescer muito, nomeadamente na área das feiras. Por outro lado, as antigas instalações da Junqueira foram reconvertidas para funcionarem como um verdadeiro centro de congressos. E também aqui tivemos um crescimento significativo. E depois, crescemos também com a criação de uma empresa na área das tecnologias da informação e da comunicação – a IWAYTRADE, que começou por ser uma parceria com outras entidades do sector, mas que neste momento é 100% detida pela AIP, e que tem funções na área das TIC de apoio aos nossos associados, e é ela igualmente que gere todos os sistemas de informação da AIP.

 

 

 

Qual tem sido o tipo de serviços da AIP mais pedidos pelos vossos associados?

Nós costumamos fazer inquéritos regularmente aos nossos associados, para saber mais sobre as necessidades deles e o que esperam da AIP. E eu diria que as questões que suscitam mais interesse da parte dos associados são em primeiro lugar a informação especializada sobre diversos domínios; depois, a questão da formação, quer para trabalhadores, quer para gestores; e em terceiro lugar os nossos serviços de apoio à internacionalização.


Qual é o tipo de informação que é mais pedida à AIP? Informação macroeconómica? Ou mais específica, como informação jurídica?

De todos os tipos. Desde informação de natureza jurídica, por exemplo, “qual é o enquadramento legal para a questão X?”; informação sobre propriedade industrial, nós temos aqui um gabinete de apoio sobre marcas e patentes; informação sobre mercados, sobre potenciais parceiros sobre mercados externos..E depois, claro, damos igualmente apoios específicos, como apoios, legislação comunitária, etc..


Estes serviços dirigem-se sobretudo às PME’s, não é?

Sim, eu penso que cada vez mais as associações são necessárias para as pequenas e médias empresas. As grandes empresas têm uma dimensão e uma massa critica que lhes permite normalmente ter soluções próprias para os seus problemas. E se não as têm, podem ir procurá-las e obtê-las no sítio adequado. E portanto, esta necessidade de apoio associativo é essencialmente sentido pelas PME. E nós aliás elegemos como prioridade estratégica o apoio às PME’s.


Para além do apoio às PME’s portuguesas, que outras prioridades estratégicas tem actualmente a AIP?


Outra grande prioridade estratégica da AIP é a competitividade das empresas. Foi neste âmbito que em 2003 apresentámos um documento a que chamámos de “Carta Magna da Competitividade”. É um documento muito interessante porque por um lado comete a ousadia de propor dez prioridades para as estratégias empresariais e para as políticas públicas. E como deve saber, definir prioridades não é propriamente um dos nossos pontos fortes em Portugal.

Este documento, inclui ainda um conjunto de 100 indicadores com os quais anualmente comparamos Portugal com os outros países da U.E. e da OCDE. E todos os anos promovemos o “Dia da Competitividade”, por alturas de Outubro/Novembro, onde apresentamos os últimos resultados deste conjunto de indicadores e aproveitamos para debater um ou dois temas de interesse para os empresários. Este ano apresentámos um documento que chamámos “Orientações estratégicas e projectos estruturantes para um desenvolvimento sustentável”, onde procurámos apresentar pistas para sairmos da crise actual que tanto nos preocupa.


A julgar pelas suas palavras, a AIP tem toda uma actividade para além da função de lobbying político…


É isso mesmo. Nós temos, aliás, uma visão que procura justamente combater essa ideia segundo a qual as associações empresariais se limitam a fazer reivindicações ao poder político e que quando analisam a situação apenas se preocupam com as políticas públicas. Isso não é verdade, pelo menos com a AIP-CE. Há de facto coisas que merecem ainda hoje fortes críticas no âmbito do sector público. Mas nem tudo vai bem no reino do sector privado. Nós reconhecemos isso e, por isso mesmo, queremos dar o nosso contributo nesse domínio.


Falemos um pouco da internacionalização das empresas. Que apoios é que a AIP faculta às empresas portuguesas a este nível?

Um dos projectos que temos, o PME Internacional, é um projecto de formação-acção, e que  começa por fazer um diagnóstico da empresa no que diz respeito às suas potencialidades de exportação e acaba com um business plan de exportação para o(s) mercado(s) identificado(s) como prioritário(s).

Outro projecto é o Fórum Portugal Exportador, onde concentramos num único dia, num único local, todos os agentes que tenham a ver com a exportação. Desde obviamente as empresas, passando pela banca, pelas consultoras, as seguradoras, os portos, as secções económicas das embaixadas, etc. E evidentemente, as câmaras de comércio e indústria bilaterais, como é o caso da CCIFP. E, durante um dia, organizamos workshops temáticos sobre mercados, sobre temas específicos que interessam aos exportadores. Tem sido um modelo que eu considero ganhador, permitindo a cada empresa, num só dia, ter um leque de contactos e um conjunto de informações que dificilmente conseguiria de outra maneira.

Por outro lado, organizamos as tradicionais missões ao estrangeiro, e recebemos com igual frequência missões estrangeiras, quer de natureza oficial quer de natureza empresarial. Aí é fundamental a rede de ligações internacionais que a AIP tem, e de que pensamos que é ímpar em Portugal. E, no mundo global em que vivemos, as redes são cada vez mais importantes. E nós somos membros da Business Europe – a confederação das confederações de empregadores da Europa - bem como da UEAPME, a União Europeia de PME; somos membros do BIAC da OCDE, e ainda com o “chapéu” de câmara de comércio que mantemos, somos membros da AICO –a Associação Ibero-Americana de Câmaras de Comércio, etc., etc. Isto permite-nos ter uma vastíssima rede de relações internacionais com organizações congéneres, o que hoje é absolutamente essencial.


Para que mercados estrangeiros é que o vosso apoio à internacionalização tem sido mais pedido?


Como sabe, o comércio externo português continua ainda muito concentrado em três ou quatro países: Espanha, Alemanha, França e Inglaterra. Mas, para onde nós temos sido mais solicitados é para ajudar na internacionalização para os mercados chamados “emergentes”. Angola, por exemplo, tem sido o mercado que tem merecido uma forte atenção por parte das empresas portuguesas. Falamos a mesma língua, é por isso um mercado “natural”, digamos assim, e é de facto onde tem havido mais procura. Mas também temos feito apoio à internacionalização para os países de Leste, bem como para o Brasil, para a Ásia, Norte de Africa e América Latina.


Na última edição do Fórum Portugal Exportador onde, como sabe, a CCIFP marcou mais uma vez a sua presença, a AIP anunciou a criação do Clube PME Internacional. Do que se trata exactamente?

Trata-se como o próprio nome indica, de uma nova estrutura concebida para apoiar e estimular a exportação entre as nossas PME’s. É uma ideia antiga, que ganhou forma concreta recentemente, fruto de uma parceria entre a AIP e o Banco Espírito Santo. Um dos problemas que temos identificado de dificuldade de que as PME’s exportem é muitas vezes uma questão de massa crítica e de falta de recursos. E por isso entendemos que é desejável que sejam encontrados mecanismos de cooperação entre as PME, que lhes facultem essa massa crítica que individualmente não têm.

 

 

O que é que vos motivou para a criação dessa nova estrutura?

Nós consideramos que uma das características mais negativas do tecido empresarial português é justamente esta falta de contacto. Os empresários e gestores portugueses são muito individualistas. Falamos muito pouco entre nós. A este propósito eu inclusivamente costumo citar com frequência um livro do Dr. Marçal Grilo, que relata a sua experiência como ministro da Educação, e a que deu o título: “O mais difícil é sentá-los.” Ele referia-se aos alunos; referindo-me aos empresários, eu diria que “O mais difícil é juntá-los”.

No entanto, quando os empresários se sentam à mesa, normalmente todos reconhecem que os resultados são muito bons. Um exemplo que comprova esta ideia é a constatação que temos também vindo a apurar no que respeita às missões empresariais “oficiais”, onde algumas dezenas de empresários acompanham o Presidente da República ou o Primeiro-Ministro nas suas visitas de Estado. Nestas missões, os contactos estabelecidos entre os empresários portugueses integrados na comitiva acabam por vezes por se revelar mais importantes do que aqueles estabelecidos com os empresários do país visitado.


Está a querer dizer que as missões empresariais no estrangeiro acabam muitas vezes por funcionar como acções de incentivo, que em vez de integrarem trabalhadores de uma empresa, integram empresários e criam um “espírito de equipa”?

Exactamente. E partindo deste pressuposto de que há muita utilidade em encontrar formas de juntar as empresas, e em particular as PME’s, pensámos que faria sentido criar um clube onde criássemos oportunidade de as pessoas se juntarem, coisa que não fariam naturalmente. Um pouco à semelhança do que na CCIFP, fazem com os vossos membros.

O que pretendemos, portanto, é  juntar empresas que são complementares, com interesses no mesmo mercado, e assim dar-lhes uma massa crítica que não têm individualmente, e assim partilharem as melhores práticas uns dos outros e informação. Uma empresa quando aborda um mercado, pode detectar uma oportunidade para um produto que não tem, e divulgá-lo. É um projecto que está a nascer, o projecto com apenas duas semanas já tinha 32 adesões. Depois serão as empresas que nos avaliarão se nós temos o talento e o engenho para lhes criar valor acrescentado, e que elas o reconheçam.


Como pretendem estruturar a actividade deste Clube?


Nós estamos a estruturar o Clube PME Internacional por grupos de trabalho. Dois tipos de grupos estão previstos: um por mercados de exportação, e outro por fileiras de produtos.

No que diz respeito ao primeiro tipo, já estamos a criar um grupo Angola. Outro que será posteriormente criado incidirá sobre o Norte de Africa, e esperamos que outros sobre Ásia e América Latina se seguirão depois. No que diz respeito ao segundo tipo, nós já  identificámos, por exemplo, uma fileira de interesse e que merece ser trabalhada, que é a do fornecimento para o sector de hotelaria. Portugal é um país forte em termos de turismo e hotelaria, mas depois quando construímos novos hotéis, praticamente tudo o que é equipamento é comprado no estrangeiro. Isto porque a oferta portuguesa não está organizada. Nós temos excelentes fabricantes, por exemplo, de cutelarias, de materiais de iluminação, etc., mas não eles não apresentam uma oferta integrada. Ora, um hotel quando compra, normalmente quer comprar o pacote “completo”. Por isso, estamos a trabalhar no sentido de criar uma fileira do sector de hotelaria com um conjunto de competências complementares.


Com a assinatura do Protocolo de Cooperação em Paris, em Junho de 2007 entre a CCIFP e a AIP-CE, a nossa instituição tornou-se, de facto, a vossa representante em França. Na sua opinião, que forma poderá assumir em termos concretos essa cooperação estratégica?

Eu penso que com o crescimento que a CCIFP tem apresentado desde a sua criação há cerca de três anos, há espaço para “preenchermos” o texto do protocolo assinado pelos nossos dois Presidentes, Jorge Rocha de Matos e Carlos Vinhas Pereira, com mais acções concretas. Para já, o que eu posso garantir-vos é que a AIP está inteiramente ao dispor da CCIFP e dos seus associados para os ajudar naquilo que entenderem que podemos ser-lhes úteis. Inclusivamente se o objectivo destes for apenas exportar para Portugal num primeiro tempo, e não apenas se quiserem investir.


Apenas exportar, mesmo sem investir imediatamente em Portugal? Algumas opiniões mais conservadoras poderiam dizer que uma associação portuguesa deveria promover exclusivamente a exportação das empresas portuguesas para fora e o investimento estrangeiro no nosso país e a, afim de colmatar o nosso défice da balança comercial…

Pois, mas eu considero essas visões estreitas e ultrapassadas. Nós aqui na AIP temos uma visão da economia que é global, e estamos conscientes que um empresário de fora que vende para Portugal hoje, poderá ser um investidor amanhã, e mesmo transformar-se num exportador “português” depois de amanhã.

De facto, até aqui há alguns anos , havia ainda muito aquela preocupação do equilíbrio das balanças comerciais bilaterais. Analisava-se o comércio externo dos países numa óptica bilateral, por exemplo procurava-se saber se a balança bilateral Portugal-França era superavitária ou deficitária, e sendo deficitária, dizia-se que era necessário levar a cabo acções no sentido de equilibrar a balança.

Mas essa leitura deixou de fazer sentido nos dias de hoje. Por isso mesmo, é raro o dia em que não recebamos uma delegação estrangeira, seja ela oficial ou empresarial, e que normalmente vêm com preocupações de exportação, e não imediatamente de investimento. E nós ajudamo-las a encontrar compradores nacionais. Estamos portanto inteiramente disponíveis para aconselhar sobre investimento, os membros franceses e luso-descendentes da CCIFP. Podem contar connosco.


Enquanto entidade associativa de referência para as empresas dirigidas por portugueses e luso-descendentes em França (estimadas em cerca de 45 000), a CCIFP tem como um dos seus objectivos de longo prazo atingir uma massa crítica de membros para poder solicitar a abertura de uma secção portuguesa no seio do MEDEF, a entidade homóloga da AIP-CE em França. Qual é a sua ideia sobre este nosso projecto?

Nós temos contactos muito regulares com o MEDEF por força de ambos estarmos filiados na Business Europe e as nossas relações têm sido óptimas, e prometem continuar assim por muito tempo Por isso, o que eu posso lhe dizer é que se a CCIFP entender que será útil ter um apoio institucional da parte da AIP junto do MEDEF para realizar os seus objectivos, posso assegurar-lhes de que o terá sem reservas.


Lisbonne, 27 février 2009