Zoom... Christophe Mouthon
Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
Christophe Mouthon é director-geral da Logoplaste France. Nesta entrevista exclusiva, o responsável do gigante português dos plásticos revela a sua visão sobre o futuro do sector da plasturgia em termos de inovação e de desenvolvimento sustentável, e explica os desafios de comunicação de um material tão reconhecido vital para a vida humana quanto objecto de diversas ideias. pré-concebidas.

Como é habitual nestas nossas entrevistas, começaríamos por pedir-lhe para contar-nos muito sucintamente o seu percurso profissional até ao presente momento...
De forma resumida, posso dizer que tenho um perfil ao mesmo tempo técnico, comercial, e de gestor. Comecei por ter uma formação de engenheiro de plásticos, o que se encontra obviamente no cerne da actividade da Logoplaste. Durante uma parte do meu percurso, assumi funções muito operacionais em diferentes partes do globo, como na Africa Subsaariana, onde fiz certificação de qualidade de peças técnicas para a construção. De seguida, parti para o Japão para garantir o arranque de uma empresa de capitais japoneses em França, investimento e implementação. É um elemento que interessa muito à Logoplaste, pois como nós construímos uma nova fábrica de cinco em cinco meses, é preciso ter-se experiência nesta área.
Após um Master em Gestão, fiz outras coisas também. Transferência de tecnologia, fui gestor de grandes projectos, assumi igualmente responsabilidades no âmbito do marketing e comercial para um fabricante de polímeros técnicos na Suíça; e fui director-geral de uma sociedade especializada em sistemas de injecção plástica de canais quentes. Forneci vários sistemas de canais quentes para empresas de moldes em Portugal, por exemplo. Por conseguinte, eu já conhecia Portugal pelo seu dinamismo, e pela sua actividade nos domínios dos moldes e da plasturgia.
Pegando nessa sua última deixa, qual é a sua opinião sobre os portugueses enquanto empresários?
Se eu precisasse de referir alguns aspectos notáveis, penso que escolheria o apego dos portugueses ao valor do trabalho, e sobretudo ao lema implícito “nós conseguimos!”, que encontro ainda hoje e justamente na Logoplaste. De facto, sendo Portugal um pequeno país, é impressionante ver como os portugueses são empreendedores e dinâmicos ao nível mundial. Não me lembro de nenhuma situação em termos de negociações ou de projectos em que, por motivos de dificuldades, eles assumissem que, pura e simplesmente, “não conseguiam”. É este lado empreendedor e voluntarioso que eu sempre vi, e que faz a diferença. Enquanto queos alemães, por exemplo, têm outro carácter, e ainda que eles sejam reconhecidos pela sua capacidade de organização, penso que também têm mais dificuldades em fazer face ao imprevisto.
Quantas fábricas conta hoje a Logoplaste no mundo?
A Logoplaste, que é o grande especialista das implantações industriais para fabricar embalagens plásticas rígidas, tem 53 fábricas no mundo ditas “wall-to -wall”, isto é, em que a fábrica se encontre dentro da fábrica do cliente para alimentar as linhas de fabrico no local. E temos projectos que permanecem confidenciais. Em França somos muito reputados pelo nosso know-how no segmento dos produtos lácteos.
Como descreve a actual estratégia da Logoplaste ?
A nossa estratégia é de duplicar a nossa dimensão, prosseguindo o crescimento que é da ordem dos 18 a 20% desde os anos 1970, e que vai continuar. O que é notável, apesar do período de crise que atravessamos todos. Este ano, o crescimento vai ser de mais de 20% o que – há que confessá-lo – pode irritar os nossos concorrentes, que são obrigados a levar-nos muito a sério.
Chegámos a ter um crescimento orgânico de dois algarismos, isto num ano dito de crise. É assim de pensar quanto é que cresceremos em tempos melhores do que os actuais. Este ano tivemos duas vezes mais contactos comerciais que no ano passado. Habitualmente ao longo do ano, havia variações relativas à procura dos clientes e, ao longo dos últimos meses, não houve nenhum abrandamento nos pedidos de estudos, não houve desemprego técnico, nós conseguimos adaptar-nos e temios a sorte que no agro-alimentar o consumo permanece relativamente estável, pelo que há pouco impacto nos produtos de primeira necessidade.
Houve grandes mudanças de mix products, as marcas distribuidores, os hard discounts apresentaram crescimentos de mais de 10%, ao passo que as marcas de renome caíram, como foi o caso da Yoplait com um decréscimo de mais de 10% sobre essas vendas. No nosso posicionamento e na nossa actiidade, as coisas são feitas de tal maneira que as marcas distribuidoras, os hard discounts são representados em proporções razoáveis. Equilibramos assim os nossos volumes: é o que nos poupou de certa forma e é por isso que uma boa parte do volume de negócios da Logoplaste continua a alicerçar-se nos produtos alimentares e, em particular, os produtos lácteos.
Vocês recebem subvenções ou ajudas da parte dos Estados onde se encontram implantados, como França e Portugal?
Não temos tido muita necessidade de subvenções, tendo em conta a nossa política de inovação que é muito, muito sustentável. Para a actividade em França, investimos em I&D e consagramos à inovação até 3% do nosso volume de negócios.
Quais são, a seu ver, os trunfos da Logoplaste em termos de inovação e de I&D no sector da embalagem?
A Logoplaste é particularmente reputada por saber diminuer o peso das suas embalagens. Nós detemos , por exemplo, o record mundial da garrafa em PET de 5 litros, que é a mais leve do mercado. Foi igualmente a Logoplaste que lançou a ideia das rolhas de gargalo curto, por exemplo. Somos bons em inovação mas, em contrapartida, penso que o mercado não nos percepciona suficientemente como tal.
Por exemplo, este ano decidimos trabalhar sobre uma aplicação inédita em plástico, levámos a cabo o desenvolvimento integralmente, inovámos, estamos à beira de a propor ao mercado e dentro de alguns mesespoderemos começar a comunicar. O que, a meu ver,constitui um eixo de melhoria, trata-se de comunicar mais sobre isto. Pois se há uma coisa sobre a qual vale a pena comunicar, é sobre o facto que as tampas de gargalo curto são uma criação da Logoplaste, aproveitada ao nível planetário.
Na verdade, vocês propõem produtos que não são procurados num primeiro tempo, mas que acabam por seduzir os consumidores finais…
O que desejamos em França, e que aliás está nos próprios “genes” da Logoplaste, é trabalhar para o desenvolvimento sustentável. Nós fazemos parte de um programa designado por “desafio 3D”, que permite diferenciar-nos pelo desenvolvimento sustentável. Em 2011, vai ser obrigatóriorotular os produtos com o seu balanço de carbono em todas as embalagens distribuídas na grande distribuição. Estamos a trabalhar nisto desde há um ano para cá.
Ora, nós sabemos que os consumidores finais são sensíveis a isto. É a grande distribuição e a cadeia logística que precisa de ultrapassar este preconceito das “embalagens que poluem”. Pelo contrário, o que é preciso é pensar nos alimentos que se perderiam sem essas embalagens. Não é por acaso que a Logoplaste recebeu um financiamento da parte do BERD (Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento): nos países de Leste, a matéria alimentar é perdida sempre que não é correctamente embalada.
Os consumidores não sabem necessariamente quem produz as suas embalagens. O que é que vocês fazem junto destes neste sentido, enquanto fabricantes?
Nós adoptamos um modelo business to business. A nossa mensagem ao consumidor final seria algo a longo prazo, mas ainda não estamos nessa fase. Hoja, com a nossa estratégia, preferimos focar-nos nas tecnologias, pois ainda não temos a dimensão necessária para fazer uma comunicação directa destinada aos consumidores. Contudo, comunicamos com as ferramentas que desenvolvemos especialmente para explicaporque é que o nosso nível de carbono é tão interessante.
Continuamos igualmente atentos, no sentido de compreender quais são os argumentos utilizados pelos nossos concorrentes.
A mensagem relativa aos “briques”, por exemplo em cartão, passou relativamente bem juntamente da opinião pública. Inclusivamente em Portugal…
Sim, é verdade. Há um lobbying muito forte para convencer que a embalagem tipo “brique” é feita de cartão, sendo que na verdade esta tem dentro alumínio, plástico, tintas… Na verade, está longe de ser tão “ecológica” que o que se possa pensar. Os fabricantes quiseram fazer crer que o brique é assimilado unicamente ao cartão natural e “bio” quanto baste, o que é falso. Aliás, assistimos ao aumento da venda de garragas (7% por ano), ao contrário dos briques que têm tendência para diminuir proporcionalmente, ao nível global. Observamos assim que a garraga ganha a pouco e pouco quota de mercado relativamente ao brique desde há uns quinze anos para cá.
Uma questão que é frequentemente invocada é se um dia em que o petróleo acabar, deixa de haver plástico… Trata-se, também isto, de uma ideia pré-concebida?
Sim, absolutamente. Em primeiro lugar, o plástico é feito de moléculas que existem em grande parte no nosso ambiente: carbono, hidrogénio, azoto… Assim, se um dia deixar de haver petróleo, poderemos contuar a fazer pl 5stico. Durante a guerra, por exemplo, fabricavam-se monómeros que eram de seguida recombinados para fazer pl 5sticos a partir de outros materiais de base, como a madeira. Era o que se fazia na Suiça. Por outro lado, os derivados de petróleo utilizados na fabricação de plástico, em relação ao consumo global de petróleo, representam menos de 5%. O que é muito pouco.
Este trabalho de comunicação, de educação e de vulgarização é feito por nós a todos os níveis da federação de plasturgia, que dispões dos meios de comunicação necessários.
O que é que ainda há para inovar no sector dos plásticos, em termos de produto e de processos?
Estamos longe de ter terminado as inovações possíveis com o plástico…
Em termos de evolução, as embalagens plásticas vão ainda progredir imenso, na medida em que é um excelente material para proteger, e podemos produzi-lo infinitamente. O nosso desafio é de reduzir os detritos e, ao mesmo tempo, continuar a melhorar as suas funcionalidades. Temos, por exemplo, projectos para substituir as latas de conservas metálicas pelo plástico multi-camadas, que conseguimos gerir ao mícron, capazes de proteger as vitaminas, os aromas, e as barreiras ao oxigénio. E podemos conservar durante mais de 18 anos produtos utilizados para a alimentação infantil em qualquer parte do globo, por exemplo. Isto vai até 20% de economia relativamente às latas metálicas.
O que é estratégico é responder aos desafios da sociedade poluindo menos. Da nossa parte, escolhemos fazê-lo através do “desafio 3D”. Precisamos de nos desenvolver enquanto fileira, e isto não é uma heresia mercantil para obtermos lucro fácil. O que nos interessa é de estarmos ainda presentes daqui a 50, 100 e 200 anos, ou mais. É seguramente mais importante para nós de melhorarmos continuamente a nossa capacidade de “fabricar” novos clientes, mais do que fabricar novas embalagens.
Eu penso que a grande particularidade do plástico em termos de percepção da população, é que as pessoas vêm o resultado mas não sabem de onde provém. Elas pensam que não é natural. É por isso que é preciso continuar a explicar-lhes como é que se faz para passar de um derivado do petróleo, ou ainda da caseína do leite de vaca, para o plástico. Daí a importância de uma comunicação ao mesmo tempo rigorosa e pedagógica no nosso sector.
Com efeito, a imagel de uma parte importante da opinião pública relativamente ao plástico, está associada à ideia de poluição, das chaminés das fábricas…
Trata-se de uma percepção que foi reforçada pelas indústrias químicas que, infelizmente, fizeram alguns disparates ao longo da história, deixando pessoas doentes, controlando mal os seus riscos de explosões… Mas importa saber que nem tudo é assim, e que se fazem coisas fantásticas e muito úteis com o plástico: próteses, substitutos de órgãos humanos, etc.. Se repararmos em todos os elementos necessários à sobrevivência de um astronauta, um marinheiro, um piloto de avião, ou um militar, esta sobrevivência é mais difícil de garantir sem plástico. Na medecina, se se suprimisse o plástico, isto iria resultar em milhares de mortes. Não há obviamente justificação para certos exageros, é preciso garantir a produção de menos detritos a partir do que é descartável. Mas há que ter em conta que existem também outros aspectos muito positivos do plástico, que o tornam indispensável.
A Logoplaste conta entre os membros fundadores da CCIFP. Como pensa que esta poderá ajudar-vos num futuro próximo no desenvolviment da vossa actividade?
Antes de mais, eu estou convencido que o modelo de negócio da Logoplaste é robusto, que as nossas equipas têm bons desempenhos, e que dispomos de uma excelência operacional e de uma estratégia muito orientada para a inovação. Agora, o que é importante para nós é entrar em contacto com as pessoas que não nos conhecem e que poderiam estar interessadas nas nossas soluções. Eu penso que esta seria a verdadeira pedra de toque de uma sinergia proveitosa entre nós e a CCIFP nos próximos tempos.
O que está em jogo é ganharmos notoriedade e entrar em contacto com decisores cujas empresas sintam necessidade de inovar, porque as suas capacidades de investimentos diminuíram ao longo dos últmos anos. Falo de utilizadores de embalagens plásticas rígidas que produzam pelo menos 20 milhões de exemplares por ano e que desejem, ao mesmo tempo, fazer economias e melhorar o seu balanço de carbono, que será obrigatório a partir de 2011, e assim diferenciar-se positivamente junto do público. Uma vez este contacto efectuado, nós seremos capazes de lhes fazer propostas adaptadas ao seu próprio modelo de negócio.
O que importa sublinhar é que estes decisores não precisarão de investir dinheiro, porque nós faremos isso por eles. É uma maneira para eles de, não somente fazer economias, mas também se protegerm do aumento da procura de matérias-primas e de energias primárias de maneira estrutural.
Paris, 7 de Dezembro de 2009
