Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
Elisabeth Machado-Marcellin é investigadora em Ciências da Informação e da Comunicação e membro do Centro de Estudo das Imagens e dos Sons Mediáticos (CEISME) da Universidade de Sorbonne-Nouvelle. A sua tese de Doutoramento intitulada "Olhares cruzados sobre o intimo-quotidiano em França e em Portugal: O caso da SIC e da TF1" encontra-se publicada na prestigiada editora universitária francesa L'Harmattan.
Para além do seu percurso académico, trabalhou como jornalista e exerce actualmente como consultora em comunicação empresarial. É filha do empresário Joaquim Machado, proprietário da Elmo, a maior loja de móveis portugueses em Paris.

Como é habitual neste nosso espaço, começaria por pedir-lhe para nos contar em algumas linhas o seu percurso profissional até ao presente momento.
Eu comecei por ser jornalista, depois exerci funções nas áreas da comunicação, do marketing e da formação no seio de grandes grupos franceses. Paralelamente, levei a cabo actividades de investigação académica na área dos media audiovisuais. Nesse âmbito, eu fiz e defendi uma tese de Doutoramento em 2005, que deu origem a um livro publicado na editora francesa l’Harmattan. De há um ano para cá, criei em Lyon uma empresa de consultoria nas áreas editorial e da comunicação escrita e web, destinada às pequenas, médias e micro-empresas.
É uma luso-descendente, uma francesa de origem portuguesa da segunda / terceira geração, e fez o seu Doutoramento em paralelo com a sua carreira na área de comunicação. Em que medida pensa que um Doutoramento pode valorizar um curriculum vitae em França, um país que, como Portugal, costuma ser criticado por uma falta de diálogo existente entre o mundo universitário e o mundo empresarial?
A falta de diálogo entre a universidade e a empresa não é, com efeito, m mal especificamente português. Em França, apenas desde muito recentemente é que se tomou consciência de que era necessário fazer dialogar os dois universos entre si. É assim que inúmeros doutorados franceses se organizam actualmente para que o doutoramento seja reconhecido ao mesmo nível que um diploma de engenheiro e qie isso tenha igualmente em conta um incidência sobre o salário do doutorado dentro de uma empresa. Da mesma forma, os anos de tese estão em vias de serem reconhecidos como anos de trabalho e não como anos de estudo. O caminho para esse reconhecimento e para essa valorização ainda é longo, mas uma verdadeira dinâmica está a desenvolver-se nesse sentido. Um doutorado não é um rato de biblioteca ou um estudante tardio. Para além das qualidades de rigor e de preserverança, uma tese atesta, entre outras coisas, de uma capacidade de compreende a complexidade e a tratá-la, bem como de um excelente domínio da gestão de projectos.
Na sua tese de Doutoramento, comparou os conteúdos dos diferentes tupos de “reality shows” em duas grandes estações de televisão em França e Portugal (TF1 e SIC, respectivamente). Em traços gerais, concluiu que as diferenças de conteúdo não eram relevantes. Pensa que é pertinente falar-se, no entanto de um “intimo-quotidiano” (expressão sua) franco-português, próprio da comunidade portuguesa em França, e diferente do íntimo quotidiano dos franceses, ou dos portugueses que vivem em Portugal?
Falar de um “intimo-quotidiano” próprio à comunidade portuguesa em França não me parece pertinente, na medida em que esta já está muito enraizada nos moldes sócio-culturais franceses e que, portanto, obedece a comportamentos relativamente idênticos. Esta comunidade é, inegavelmente, influenciada por esquemas comportamentais duplos, alguns herdados do seu país de origem e outros provenientes do seu país de acolhimento. Esta “miscigenação”, se podemos chamar-lhe assim, não constitui um caso de estudo relevante. As diferenças de um país a outro mantêm-se sensíveis, mas não significativas.
Que diferença observa entre os produtos/canais de comunicação consumidos/utilizados pelas diferentes gerações da comunidade portuguesa em França? Pensa que existe uma discrepância entre essas gerações? E entre as diversas “comunidades” portuguesas a viver nas várias regiões de França?
Eu julgo que a comunidade portuguesa em França segue a mesma tendência que a observada no seio da população francesa strictu sensu. Os hábitos de consumo em matéria de tecnologias de informação e de comunicação, em boa verdade, não diferem muito. A geração mais antiga manifesta uma predilecção pelos médias mais clássicos, televisão e rádio nomeadamente, com um forte apegamento aos conteúdos em língua portuguesa. A geração mais jovem não rompe forçosamente com esse cordão umbilical, mas é mais adepta igualmente dos novos media (Internet, podcast, etc..) e de lazeres digitais, mais interactivos e mais nómadas. Hoje, um jovem em cada três tem um blogue, mais de um em cada dois serve-se regularmente dos “chats”. A diferença entre as duas gerações: os jovens nasceram em plena revolução tecnológica.
Em que medida pensa que esta discrepância de hábitos de comunicação entre as duas gerações pode afectar um dos grandes desígnios da CCIFP, que é de congregar os empresários portugueses e luso-descendentes de França em torno de uma causa franco-portuguesa? A seu ver, estamos perante um problema? Se sim, que soluções possíveis é que antevê?
A discrepância geracional não invalida que existam laços de comunicação sólidos entre os mais jovens e os mais velhos. A isto deve-se, sem dúvida, a uma ligação afectiva muito forte ao país e à cultura de origem. A minha observação pessoal leva-me a pensar que os luso-descendentes, que rompem o elo cultural de origem, fazem-no normalmente por uma questão de imagem e de percepção. Eles associam os empresários da primeira e da segunda geração a um paternalismo e a um modo de gestão obsoleto, bem como a uma falta de fair-play e de escrúpulos na gestão e na governação dos negócios. Alguns recusam-se por vezes a ser identificados como portugueses porque, para eles, o português ainda não saiu da sua imagem de operário simpático, trabalhador e dócil. É, a meu ver, ao nível do marketing da imagem de marca que se antevê uma longa estrada a percorrer.
Na sua opinião, o factor afectivo resultante da filiação portuguesa, pode ou assumir um papel de relevo para a mobilização dos empresários portugueses das várias gerações. Ou, pelo contrário, pensa que a invocação dessa filiação se revela cada vez mais um arcaísmo saudosista, que contrasta com um maior “pragmatismo” das novas gerações, mais orientadas para os resultados concretos em termos de negócios?
Eu penso que, efectivamente, para a nova geração, a bandeira da saudade está totalmente ultrapassada. Os empresários, portugueses ou luso-descendentes, instalados em França têm uma abordagem pragmática, menos autárcica, que é, a meu ver, muito salutar. Se eles podem fazer negócios com compatriotas, melhor. Mas não é propriamente a sentimentalidade portuguesa que prevalecerá. Inúmeros dirigentes de grupos poderosos, aliás, são portugueses mas sem reivindicar essa filiação como um argumento para tudo. Porque eles sabem que, como na espécie humana, a mestiçagem é portadora de riqueza. Mesmo no mundo empresarial.
Foi adjunta da direcção de programas da CLP-TV, o primeiro projecto de canal de televisão para a diáspora portuguesa, e que infelizmente não foi bem sucedido. Do ponto de vista dos conteúdos televisivos, qual era a estratégia deste canal? Qual foi a sua posição sobre a questão ao longo do tempo. Que lições tirou da sua experiência na CLP-TV?
No princípio, e foi o que levou a aderir a esse projecto, a ideia era de propor um novo órgão de comunicação, totalmente inédito, prioritariamente pensado para os luso-descendentes, que são o futuro dessa comunidade. A programação previa, para esse efeito, conteúdos modernos, interactivos e simultaneamente lúdicos e didácticos. A estratégia queria-se claramente distintiva, relativamente aos canais portugueses nacionais, que também emitem programas para fora de Portugal, tais como a SIC e a RTPi. Eu sempre apoiei esse projecto, contanto que ele se mantivesse fiel ao que havia sido estabelecido no seu caderno de encargos, e isto não obstante as dificuldades financeiras iniciais. Eu abandonei o projecto assim que compreendi que iam praticamente matá-lo na raiz, e desnaturar o conceito. Eu néao quis aderir a um projecto que se pretendia tornar uma cópia daquilo que já existia. Eu apenas retiro dessa experiência frutos positivos: a imensidão dos domínios mais técnicos que pude descobrir em profundidade, assim como certos profissionais incrivelmente íntegros e rigorosos com os quais trabalhei.
Pensa que continua a haver espaço para um novo projecto de televisão franco-portuguesa no futuro. Quais seriam, a seu ver, os requisitos para que o projecto fosse bem sucedido?
Eu não gosto de fazer futurologia, mas penso que continua a haver espaço para um tal projecto. Eu continuo a lamentar que uma população emigrante, tão numerosa em França, disponha de tão poucos media quando, pelo contrário, algumas outras “comunidades” têm diversos canais de televisão à sua disposição. Mas seria necessário sair do amadorismo e da improvisação, e passar a dar uma verdadeira dimensão a um tal projecto. Precisamente para dar uma outra imagem de marca aos portugueses de França. Uma das condições indispensáveis é beneficiar de fundos importantes, sendo que a economia da televisão é dispendiosa. Com este primeiro requisito cumprido, importante que o capitão do navio tenha mão no leme de acordo com as boas práticas, mesmo em tempo de tempestade e que ele saiba fazer aderir, num espírito de coesão, a sua tripulação. E, tal como no mar, é a noção de grupo que deve primar, e não a dos indivíduos. É esta distinção que explica que, por vezes, certos barcos nunca cheguem a bom porto. A isto chama-se a “inteligência colectiva”. É uma das chaves do sucesso.
Paris, 7 de Setembro de 2009
