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Zoom... Graça Correia da Silva

Zoom... Graça Correia da Silva
Zoom... Graça Correia da Silva
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Graça Correia da Silva, é directora-geral do Banco Português de Investimento (BPI) sucursal de França. Jovem quadro com um percurso profissional partilhado entre Portugal e França, viria igualmente a adquirir a dupla nacionalidade franco-portuguesa. Acompanhou por dentro e desde cedo as profundas transformações na relação entre os sistemas bancários dos dois países nos últimos 15 anos e, actualmente, dirige todo um processo de crescimento e de modernização das estruturas do BPI em França. É membro do Conselho Estratégico da Câmara de Comércio e de Industria Franco-Portuguesa, onde o BPI se conta entre os membros fundadores.

CCIFP

 

Pode descrever-nos um pouco do seu percurso profissional até assumir a direcção-geral do BPI em França?

Eu nasci e cresci no Porto, antes de seguir os meus estudos universitários em Coimbra, onde me licenciei em Direito. Mais tarde, na sequência de um 3.° ciclo em Paris, para o qual beneficiei de uma bolsa de estudos, trabalhei na OCDE antes de integrar o Banque Franco-Portugaise. Ingressei no BPI (então Banco Borges) há 12 anos, onde exerço as funções de directora-geral desde 2001.


Quais são, na sua opinião, as principais diferenças entre a gestão em França e em Portugal?

Repare que eu não tenho experiência de gestão de empresas em Portugal. Trabalhei lá durante pouco tempo e exclusivamente na administração pública, no seio da Comissão de Coordenação e de Desenvolvimento da Região Centro, onde participei sobretudo no lançamento das estruturas de apoio técnico às colectividades locais, resultantes do vasto projecto de descentralização administrativa. Por conseguinte, não creio ser a pessoa indicada para fazer essa comparação, ainda que viva entre a França e Portugal e em contacto diário com dirigentes e quadros portugueses.
Mas para responder à sua questão, não me parece que se possa falar de uma diferença de métodos de gestão entre os dois países. Eu apontaria antes, se quiser, uma diferença de atitudes, que se traduz numa outra forma de condução dos negócios e projectos. O excesso de orgulho nacional – pecadilho dos franceses…– também é patente ao nível das empresas, o que as torna menos permeáveis às experiências estrangeiras, privando-as de uma fonte de enriquecimento. Isto está a mudar aos poucos…aliás, pode ver que as grandes écoles de commerce, que formam os futuros quadros das empresas francesas, têm consciência disto, razão pela qual têm vindo a incentivar o intercâmbio de alunos com universidades estrangeiras.


Pegando nessa deixa, quais são para si as vantagens de uma carreira internacional?

Na altura em que eu deixei Portugal, as vantagens de uma internacionalização da carreira eram mais do que evidentes, tanto no plano profissional como pessoal. Iam bem para além da simples abertura de espírito a outras culturas. Estudar e trabalhar em Paris constituiu para mim uma verdadeira lufada de ar fresco, uma nova forma de estar, de pensar e de trabalhar, num momento em que Portugal vivia ainda isolado e onde os portugueses tinham falta de orgulho colectivo, copiando, na quase totalidade das áreas, os modelos dos países desenvolvidos.
Hoje, a realidade portuguesa é completamente outra, felizmente. Os portugueses viajam muito e sobretudo são inovadores, com excelentes performances no plano tecnológico. A referência deixou de ser o que faz “lá fora”.
De todas as maneiras, penso que é obvio que uma experiência internacional terá sempre um valor acrescentado num percurso profissional.


Que diferenças observa entre os profissionais expatriados de ontem e de hoje?

Primeiro, são hoje muito mais numerosos. O círculo dos profissionais expatriados portugueses em Paris era outrora bastante restrito. De tal forma que, na altura, a carreira de um bom número de directores de banco evoluía  (e, com ela, a sua remuneração) ao ritmo das mudanças regulares de instituição. Hoje em dia, o sector bancário já não funciona nesse vase-clos.
Em segundo lugar, os profissionais expatriados de hoje evidenciam uma maior mobilidade, acumulando experiências sucessivas em diferentes países, o que no passado, era apanágio quase exclusivo dos diplomatas. Na brincadeira, eu costumo apelidá-los de “transumantes”…


Graça Correia da Silva

Como vê o actual panorama da banca portuguesa em França?

O cenário da banca portuguesa em França mudou radicalmente ao longo dos últimos dez anos: antes tínhamos sete ou oito bancos, hoje temos menos. O processo de concentração traduziu-se na fusão dos bancos BP&SM, BPA e Mello, e na absorção do BFP pela Caixa Geral de Depósitos.


Com efeito. E que papel pensa que os bancos portugueses poderão assumir em França no futuro?

Um papel preponderante enquanto parceiros bancários privilegiados da comunidade portuguesa, que constitui a razão da implantação desses bancos neste país. Os nossos clientes em França são também frequentemente nossos clientes em Portugal. Existe uma vontade dos bancos de permanecer activos num mercado importante como é o da emigração portuguesa, com, no caso de alguns, uma estratégia de abertura a outras comunidades.


Contudo, a imprensa portuguesa cita com frequência estatísticas sugerindo uma diminuição da importância desse mercado da diáspora para os bancos portugueses…

Eu discordo completamente dessa análise. Pelo contrário, estou convicta que os bancos portugueses terão muito que fazer em França nos próximos vinte anos, desde que saibam continuar a apostar num serviço de qualidade.
Antes de mais, há que ter em mente que as estatísticas francesas sobre a emigração não reflectem a realidade. Quando recensam cerca de 800 000 imigrantes portugueses, não contam nem os luso-descendentes de nacionalidade francesa, nem os portugueses emigrados que acumularam a sua nacionalidade de origem com a nacionalidade francesa. Por outro lado, uma nova vaga de emigração portuguesa, nomeadamente para França, tem vindo a emergir.
Depois, o volume de transferências de fundos de França para Portugal está a aumentar significativamente. É verdade que, no inicio desta década, assistimos a uma diminuição destas remessas, mas esse decréscimo foi pontual e fruto da introdução do euro fiduciário.
Mas uma coisa é certa e já a evoquei: o futuro dos bancos portugueses em França depende da sua determinação em continuar a oferecer um serviço de qualidade.


Visto que menciona a importância da qualidade dos serviços, como avalia a evolução da actividade bancária em cada um dos países, França e Portugal?

Se compararmos a evolução desse sector de actividade nos dois países, constatamos necessariamente que as evoluções respectivas se cruzaram.


Pode explicar melhor essa ideia?

Concerteza. Há vinte ou trinta anos, as estruturas parisienses dos bancos portugueses eram dotadas de meios técnicos mais sofisticados que as suas casas-mãe. Possuíam, por exemplo, salas de mercado muito modernas para a época, que lhes permitiam estar presentes em mercados financeiros aos quais a regulamentação portuguesa proibia o acesso.
Ora, acontece que hoje, o que se passa é o contrário: são os bancos portugueses em França que não atingem níveis de serviço e de qualidade tão elevados como os das suas sedes em Portugal. Para além de uma questão de dimensão, que se traduz inevitavelmente por uma oferta de produtos e serviços menos alargada, os bancos de depósito portugueses em França sofrem as mesmas limitações técnicas que os seus congéneres franceses. Já o sector bancário em Portugal é especialmente inovador e goza de um avanço considerável relativamente ao seu homologo francês. Basta comparar, por exemplo, as funcionalidades de um ATM nos dois países, o mercado dos cartões bancários ou ainda pensar que até há bem pouco tempo, em França, a compensação em matéria de cheques se fazia através da circulação física desse meio de pagamento. E que continua a ser largamente utilizado.


Neste quadro que acaba de descrever, qual tem sido a estratégia do BPI em França?

O BPI em França entrou, desde há alguns anos, numa dinâmica de modernização e de crescimento. Modernização das suas estruturas de acolhimento – nas quais o “lay-out” BPI está a ser progressivamente instalado – do seu sistema de informação, da sua oferta de produtos e serviços e do crescimento da sua rede. Abrimos três agências em Montreuil, Clichy-sur-Seine e Nanterre ao longo dos três últimos exercícios e um escritório de representação acaba de ser inaugurado em Lyon neste mês de Dezembro.
Por outro lado, e após um longo período onde o banco em Portugal e a sua sucursal em França funcionaram como compartimentos estanques, foram, nos últimos anos, desenvolvidas sinergias e, por essa via, realizadas evoluções tecnológicas consideráveis. O objectivo consiste em oferecer uma continuidade de serviço entre Portugal e França, de modo que os nossos clientes beneficiem, a partir do hexágono francês, de um acompanhamento bancário em Portugal. Por outras palavras, nós desejamos ser o parceiro privilegiado – senão exclusivo – dos nossos clientes nos dois países.


Como membros fundadores da CCIFP, como avaliam o trabalho desenvolvido pela CCIFP?

Posso dizer-lhe que o BPI tem muito orgulho em fazer parte dos seus membros fundadores. Desde que o Dr. Carlos Vinhas Pereira assumiu a sua presidência, a CCIPF tem adoptado uma atitude de grande pragmatismo, orientada para as necessidades reais dos seus aderentes, nomeadamente através da oferta de serviços e funcionando como elo de liçagão entre as empresas. O serviço de traduções, por exemplo, pois é extremamente difícil encontrar boas traduções francês/português. Idem relativamente à bolsa de emprego: não é tarefa fácil para as empresas portuguesas recrutar os recursos humanos adequados às suas necessidades, na medida em que o mercado de trabalho bilingue é restrito.
Por outro lado, tive recentemente a oportunidade de ler os testemunhos de outros membros no site internet da CCIFP : confirmam não só a qualidade dos seus serviços, mas igualmente a capacidade de pôr as empresas em contacto para que sejam criadas reais oportunidades de negócio.



Paris, 11 de Dezembro de 2007

CCIFP