Bandeira de Portugal Português
Bandeira de França Français

Zoom... Jean-Marc Vilon

Zoom... Jean-Marc Vilon
Zoom... Jean-Marc Vilon
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Jean-Marc Vilon é o Presidente do Banque BCP com sede em Paris. Nesta entrevista, resume-nos um pouco do seu percurso, explica-nos o novo funcionamento do Banque BCP e revela-nos os principais desafios face à actual crise financeira mundial. A mediática fusão entre a Caisse d'Epargne e o Banque Polulaire, e os seus efeitos para o Banque BCP são igualmente referidos.

CCIFP

 

 

Como já é da praxe neste nosso espaço, gostaria de lhe pedir que nos contasse em algumas linhas o seu percurso profissional, até ter assumido a presidência do Banque BCP.

Eu fiz os meus estudos superiores em Matemática e Finanças. Comecei a minha vida profissional no Crédit Agricole, no departamento de gestão de activos, e depois na Caisse de Dépôts et Consignation, ainda na mesma área. Em 1992, ingressei na Caisse d’Epargne para assumir a direcção financeira de um balcão, perto de Saint-Etiènne. Fiquei là até 1998, onde assumi o mesmo cargo, desta feita na Caisse d’Epargne ile-de-France Paris. Nesse mesmo ano, fui integrado no directório.

Depois, progressivamente, foram-me sendo atribuídas outras funções, em áreas tão diversas como segurança, logística, imobiliário, produção bancária, back-office e informática. A partir de 2004, fui nomeado director-geral responsável pela actividade comercial, função que ainda hoje mantenho. Actualmente, sou o responsável pela Caisse d’Epargne Ile-de-France, que se chama assim hoje após a fusão da Caisse d’Eparge Paris com a Caisse d’Epargne Nord e a Caisse d’Epargne Ile-de-France-Ouest. Trata-se da mais importante em toda a rede das Caisses d’Epargne, com 5200 empregados.

Paralelamente ao meu estatuto de membro do Directório da Caisse d’Epargne Ile-de-France responsável pelas actividades comerciais, e desde Julho de 2006, sou igualmente Presidente do Directório do Banque BCP. Isto aconteceu quando a Caisse d’Epargne comprou 80% do seu capital ao Millennium BCP.

Porque é que a Caisse d’Epargne quis comprar o Banque BCP? Foi uma aposta no mercado da comunidade portuguesa em França?

Há várias razões. Para começar, era uma maneira de aumentar rapidamente as suas quotas de mercado, tanto no segmento particulares como no segmento empresas, comprando um banco que já tinha um certo nível de actividade. Era uma maneira de a Caisse d’Epargne utilizar os seus resultados, os seus fundos próprios, no desenvolvimento do seu core business.

Assim, porquê o Banque BCP? Antes de mais, porque ele estava à venda, obviamente, mais também por que o modelo de actividade do Banco BCP nos interessava muito. Trata-se de um banco que trabalha da mesma forma que a Caisse d’Epargne, mas com um savoir faire específico no que diz respeito à clientela portuguesa ou luso-descendente. Savoir faire este, que a Caisse d’Epargne não tem. É uma actividade que se pode chamar “de nicho”, sem nenhum sentido pejorativo.


Certamente que também há clientes portugueses na Caisse d’Epargne…

Com certeza que há. Mas ao passo que esta oferece um serviço generalista como ela faria com um cliente francês ou de qualquer outra origem nacional, o banco BCP pode propor produtos específicos que ligam a sua oferta a Portugal. Portanto, o que nos interessou foi precisamente o potencial de desenvolvimento do Banque BCP nesse nicho de actividade, tentando recorrer a meios técnicos da Caisse d’Epargne de maneira a obter melhores economias de escala.


Para quem não esteja a par, pode dar-nos um exemplo desses prós “específicos”?

Na sua base, o Banque BCP tem a mesma oferta que qualquer outro banco. Todos os bancos têm um cartão de débito ou de crédito, por exemplo. Mas tanto quanto possível, nós fazemos as coisas de maneira a que todos os nossos produtos tenham uma particularidade que ligue o produto às necessidades “afinitárias”, digamos assim, da comunidade portuguesa em França. O nosso cartão bancário, por exemplo, é associado à TAP Portugal, a companhia aérea portuguesa. Permite aos nossos clientes, quando o utilizam, de acumular pontos para ganhar viagens gratuitas para Portugal.

Eu dou-lhe outro exemplo. Como deve saber todos os bancos em França têm o chamado Livret A. Trata-se de um produto que é o mesmo em todos os bancos. Mas um cliente que adquira um Livret A no nosso banco, faz ao mesmo tempo um gesto ecológico e de cidadania no seu país: ele planta uma árvore em Portugal. É um pequeno gesto, simbólico, mas que mostra bem o que somos, isto é, somos um banco, fazemos banca em França, mas não esquecemos o nosso país, o país das nossas origens. Não esquecemos o que somos, e a comunidade portuguesa demonstra de facto que existe uma grande vitalidade da sua cultura.


Já que fala em “mercado afinitário”, gostaríamos de o citar numa entrevista que deu recentemente, onde afirmou o seguinte: ‘Face à crise, o laço afinitário faz com que possamos ter mais confiança da parte dos nossos clientes”. O que quis dizer com isto?

Quando comprámos o Banque BCP, tentámos ter o melhor desempenho possível junto dos nossos clientes, mas para isso, contamos igualmente com os nossos clientes, que são da mesma comunidade que nós. A partir daí, cria-se uma relação de proximidade com eles, que continua a ser profissional, mas que pode assumir também uma parte de “afectiva”.

Eu diria igualmente que a relação entre um banqueiro e o seu cliente encontra a sua base na confiança. E quando estamos no seio de uma mesma comunidade, que nos conhecemos, a confiança é mais fácil de estabelecer, e frequentemente é mais forte do que o “normal”. E isto, representa um verdadeiro trunfo para nós, com um impacto directo sobre a fidelização do cliente, entre outros aspectos.

foto interieur

Quando a notícia da compra do Banque BCP pela Caisse d”Epargne chegou aos ouvidos da comunidade portuguesa, pensou alguma vez que esta operação pudesse levar a uma “fuga” de uma parte importante da vossa clientela?

É possível que, na altura, algumas pessoas tenham receado essa possibilidade. Não era o meu caso, de todas as maneiras. Aliás, eu sempre estive convencido que o desaparecimento da marca “Banque BCP” teria sido um erro total. Um dos meus primeiros actos assim que assumi a direcção do banco foi de garantir aos clientes que nós não iríamos mudar, e que se a Caisse d’Epargne se interessou pelo Banque BCP, foi pelo que ele é e pelo que ele sabe fazer.


Dois anos volvidos, o comportamento desse “nicho” correspondeu às suas expectativas?

Sim, nós tínhamos fixado um plano estratégico 2008-2010, que preconizava por um lado que o banco se dotasse de mais meios de desenvolvimento comercial, e por outro lado de utilizar as forças da Caisse d’Epargne em termos de meios e em termos técnicos. Ora, os resultados que apresentámos em 2008 mostram que estamos realmente no bom caminho. O banco começa a reconquistar clientes, está a desenvolver as taxas de equipamento da clientela, e continua a evoluir de maneira extremamente positiva. Portanto, tudo isto valida o nosso modelo.


Como antevê o futuro para o Banco BCP, e para os bancos portugueses sedeados em França, em geral? Esta comunidade portuguesa de França durará para sempre, enquanto clientela?

Primeiro, o que se constata hoje é um aumento do tamanho global do número de pessoas da comunidade dentro do conjunto da nossa clientela, e não o contrário. Induzida pelo seu senso comum, a maioria das pessoas poderá pensar que com a renovação geracional, o sentimento comunitário desaparecerá pouco a pouco. Ora, a verdade que ela integra-se cada vez mais no seu em França, mas mantém ao mesmo tempo a sua identidade portuguesa. Se um banco lhes proporcionar um excelente serviço acompanhado de uma relação personalizada, é certo que este banco se desenvolverá.

O Banque BCP tem também clientes não portugueses? São muitos?

Temos clientes não portugueses, mas não é o nosso segmento principal. Em contrapartida, o que temos feito desde há dois anos tem sido duplicar o nosso savoir faire “afinitário” que desde sempre utilizamos com a clientela portuguesa, desta feita com uma clientela polaca. Assim, hoje temos colaboradores bilingues polaco-francês, e oferecemos uma panóplia de serviços alinhada com o Millenium Bank na Polónia. Trata-se de um conjunto de serviços dentro do mesmo espírito, similar àquele que utilizamos para Portugal e para a comunidade portuguesa. Hoje temos, por isso, vários balcões que integram um espaço de actividade Polónia, em Auber, em Saint-Denis, em Lyon, etc.. E em breve, em Aulnay, que será um balcão “misto” deste o princípio.

Quer dizer que é possível para um banco transferir um savoir faire “étnico-afinitário”, chamemos-lhe assim em termos de gestão de clientela, de uma comunidade a outra?

Bem, também não podemos fazê-lo até ao infinito. Para cada situação é necessário dar um tratamento específico, mas a questão está em fazer passar uma mensagem do estilo: em vez de se “diluir” num grande banco generalista, que vos oferece alguns bons serviços mas que não se interessa em si enquanto indivíduo com uma determinada identidade cultural, o Banque BCP fá-lo.

foto interieur 2

Quando assumiu a direcção do Banque BCP, a CCIFP estava ainda na sua fase de arranque. Nessa altura, integrou o corpo de membros do nosso Conselho estratégico e de Desenvolvimento…

Sim, o meu antecessor, o Dr. Fernando Nogueira, tinha participado activamente na ideia da criação da CCIFP. Por isso mesmo, o Banque BCP é um dos membros fundadores da instituição. Assim, ele propôs-me que eu próprio continuasse a sua acção, o que me pareceu extremamente natural e importante. Eu não sou de origem portuguesa. Mas a CCIFP constitui para mim um exemplo vivo que ilustra bem esse dinamismo dessa comunidade que se assume, em simultâneo, francesa e portuguesa.


O Banque BCP, como referiu, conta entre os membros fundadores da CCIFP. Entretanto, sobretudo durante o último ano, a instituição que preside tem demonstrado um interesse e uma vontade de participação sem precedentes pela nossa actividade: patrocínio do Palmarés das Empresas Franco-Portuguesas, da 3.a edição do nosso Fórum dos Empresários que terá lugar este ano, a inscrição de uma equipa motivada na Liga CCIFP… A que se deve esta nova dinâmica?

Como acabei de referir, eu penso que a CCIFP tem encontrado cada vez mais o seu lugar enquanto estrutura importante na melhoria e no dinamismo da comunidade portuguesa em França. E nós, enquanto instituição bancária que quer assumir um papel de relevo no âmbito dessa mesma comunidade, na sua “bancarização”, decidimos com plena consciência reforçar o nosso envolvimento com a instituição que fundámos em conjunto com 18 outras empresas.

E isto porquê? Porque vimos a CCIFP evoluir, de maneira extremamente positiva, desde que ela nasceu. Porque temo-la visto a ter cada vez mais iniciativa. Neste quadro, eu acho que era perfeitamente normal acompanharmos essa mesma evolução de forma próxima.


Falemos um pouco da Caisse d’Epargne, uma das maiores instituições financeiras de França, e da qual é membro do Directório en Ile-de-France (região parisiense). Tanto a Caisse d’Epargne que o Banque Populaire caracterizam-se por um certo tipo de “corporate governance” bastante particular, não adoptada em nenhum banco em Portugal. Pode esclarecer-nos um pouco, especialmente os nossos leitores em Portugal, sobre como funciona esse tipo de estrutura?

Com certeza. A Caisse d’Eparge e o Banque Populaire são dois bancos designados “mutualistas”. Existem outras instituições bancárias conhecidas aqui em França que também têm esse tipo de estrutura, como é o caso do Crédit Agricole e do Crédit Mutuel. Tratam-se de bancos que são federados no seio de uma mesma rede, sendo que cada um mantém a sua própria autonomia. Existem hoje 17 Caisses d’Epargne. Cada uma está federada numa rede que se chama Caisse Centrale des Caisses d’Epargne. Nestas estruturas mutualistas, existe um órgão à cabeça que assume um papel de representação junto das autoridades de tutela, e a quem são geralmente confiados meios comuns, no domínio do marketing, da informática, etc..

É um sistema, de facto, bastante especial. Não é uma estrutura capitalista, porque o capital é detido por partes sociais sendo que nós somos detidos por sócios, e não por “accionistas”. Isto é o nosso capital é composto por partes sociais detidas pelos nossos clientes. Funciona de certa maneira como uma cooperativa, só que desta feita, financeira. Que eu saiba, não existe efectivamente nenhuma estrutura deste tipo em Portugal, pelo menos no que diz respeito aos principais bancos. Existe em outros países como a Alemanha, Itália,... Mas é de facto em França que o modelo mutualista se desenvolveu mais no mundo da banca e da finança em geral.

E como é que o Banque BCP, que não é um banco mutualista, se enquadra nesta estrutura?

O Grupo Caisse d’Epargne, que é constituído na sua base pelas “Caisses, que são estabelecimentos mutualistas, podem deter um certo número de filiais no sector financeiro. Estas filiais têm geralmente um estatuto de direito privado, cujo principal accionista se torna então a Caisse d’Epargne. Uma das nossas filiais é o Banque BCP, tal como é a companhia 1818, o banco Palatine (ex-São Paulo), um banco destinado às PME’s. Estas são estruturas, chamemos-lhe assim, “clássicas”, sociedades anónimas com accionistasque são as Caisses d’Epargne regionais ou o organismo central.

Viaja com frequência a Portugal? Qual é a sua opinião “francesa” sobre o sector da banca lá, e que comparação faz com a banca em França?

Eu viajo com frequência a Portugal, pois nós mantemos contactos muito estreitos com o Millennium bcp, que continua presente no nosso capital, com 20% para além de se tratar de um importante parceiro comercial. O que constato é que a banca em Portugal modernizou-se mais tardiamente do que em França. O que, na verdade, constitui hoje uma vantagem. Eu vejo o Millennium utilizar meios e tecnologias modernas que nós bem gostaríamos de utilizar na banca francesa em geral. Infelizmente, temos mais dificuldade em implementar estas tecnologias, porque temos a história a condicionar-nos. É preciso não esquecer que o Millennium é um banco recente, com uns trinta anos de existência. Nós, os bancos franceses em geral, temos uma história mais antiga.

Por outro lado, essa nossa história mais antiga também constitui uma vantagem. Para ter o melhor nível de serviço possível, é preciso realizar investimentos extremamente elevados. E o Banque BCP, sozinho, nunca teria a massa crítica suficiente para o fazer. E sendo a informática hoje em dia um elemento-chave da actividade bancária, estamos a implementar um projecto de migração que fará com que a partir de Outubro deste ano o sistema informático do Banque BCP será o mesmo que serve os 26 milhões de clientes da Caisse d’Epargne. (Esta evolução é transparente para os nossos clientes, permitir-nos-á economizar e dotarmo-nos de meios informáticos mais eficazes para os nossos clientes)

Passemos agora a um assunto mais sensível, mas da maior importância para a banca em França: a fusão em curso entre a Caisse d’Epargne e o Banque Populaire. Esta dá-se num momento em que os números de 2008 acusam uma perda de 2 mil milhões de euros para Caisse d’Epargne e de 468 milhões de euros para o Banque Populaire…

Sim, não se esqueça no entanto que uma grande parte dessas perdas provém da perda oriunda do nosso banco de investimento comum, o Natixis. A crise financeira afectou sobretudo os bancos de investimento, mas se verificar os números dos bancos regionais (BP e CE) verá que são positivos.

É verdade. Em todo o caso, parece evidente que estes números estimularam o desencadear deste processo. Quais são as suas perspectivas relativamente a esta fusão? Está optimista?

Sim, estou muito optimista! Mas permita-me recordar que o projecto em curso a fusão entre os dois bancos não é uma ideia nova. Já desde há alguns anos e por várias vezes, que foi discutido uma aproximação entre as redes da Banque Populaire e da Caisse d’Epargne, na medida em que ambas são bancos mutualistas, espalhados por todo o território francês e que são bastante complementares.

Entretanto, no ano passado este projecto voltou à ordem do dia, e é, com efeito, bem possível que a crise financeira e bancária tenha acelerado a concretização do mesmo. Eu da minha parte, digo: ainda bem. Isto porque eu penso que se trata de um bom projecto. Cada uma das redes vai poder tirar partido das melhores competências do outro, e tornar-se no segundo maior grupo bancário em França, com quotas de mercado importantes em todos os sectores de actividade: particulares, empresas, autarquias, etc..


Em que consiste exactamente esta fusão? Vai ser apenas ao nível dos Directórios?


Vamos fundir os nossos órgãos centrais: a Caisse Nationale des Caisses d’Epargne, e o Banque Fédérale des Banques Populaires. Não sei ainda qual vai ser o nome do novo conjunto. Haverá um directório único para a estratégia “corporate”, que se encarregará da gestão de todas as participações externas do grupo, tais como as que temos na Natixis, no Crédit Foncier, etc.. À parte disto, continuaremos a ter em paralelo as duas redes de banca de retalho (CE e BP), mas o novo conjunto poderá aproximar a gestão em certos domínios como por exemplo, meios de pagamento, títulos, etc… afim de melhorar a sua eficácia. Também neste ponto nada muda para os nossos clientes: os interlocutores e estruturas permanecem os mesmos, todavia a aproximação permitirá a estes obterem melhores serviços a um menor custo.

Quer dizer que ao contrário de certas fusões, como aquela da GDF-Suez, a fusão Caisse d’Epargne / Banque Populaire não implicará que os colaboradores das duas instituições precisem de aprender a adaptar-se a uma nova cultura organizacional?

A ideia é aproveitar o melhor de ambas organizações respeitando as duas culturas. Pontes serão criadas para potenciar a riqueza que esta complementaridade oferece. É um projecto apaixonante e que expande os horizontes a todos os colaboradores.