Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
José Berberan Ramalho é o novo director-geral da Caixa Geral de Depositos sucursal de França. Nesta entrevista, é-nos revelado o seu percurso profissional em Portugal, bem como a sua visão sobre a estratégia do maior banco português em França para os proximos anos.

Esteve vários anos e foi vice-presidente da CaixaBI, distinguida como o melhor Banco de Investimento em Portugal 2010 pela revista Global Finance e Melhor Casa de Dívida em Portugal 2010 pela revista Euromoney. Quais considera terem sido os principais trunfos em relação aos principais concorrentes, da estratégia seguida pela CaixaBI para obter este reconhecimento?
Sou daqueles que pensam que, na grande maioria dos casos, a principal causa do sucesso é o trabalho. É também essa a causa fundamental do sucesso do Caixa BI: trabalho árduo dos seus colaboradores, suportado por uma excelente formação técnica (cuja aquisição também é fruto de trabalho). Para além deste factor-chave, há que reconhecer que o sucesso do Caixa BI foi também potenciado pela sua inserção no Grupo CGD, cuja dimensão, grau de internacionalização, e amplitude de actuação (enquanto conglomerado financeiro), proporciona constantemente oportunidades para a área de negócio da banca de investimento.
Qual é a sua visão quanto ao papel/missão dos bancos portugueses instalados em França para o apoio à internacionalização das empresas portuguesas neste país? No caso da CGD, que peso tem tido este segmento na estratégia da instituição?
No Grupo CGD consideramos que o apoio à internacionalização das empresas portuguesas em França é particularmente eficaz se houver uma actuação conjugada entre a casa-mãe em Portugal, onde normalmente se localizará o gestor do cliente empresa, e a Sucursal de França. A esta Sucursal deverão competir todos os aspectos da relação que exijam uma “expertise” sobre o mercado local francês. Com efeito, mesmo num espaço económico integrado como é a União Europeia, as particularidades locais continuam a ser extremamente importantes, e o seu desconhecimento é frequentemente a causa de insucessos comerciais. Daqui decorre um papel muito relevante para a Sucursal, dada a importância das relações comerciais entre Portugal e a França.

Foi nomeado para dirigir a sucursal da CGD em França, o país com a maior comunidade portuguesa da Europa, uma das maiores do Mundo. A diáspora portuguesa constitui um dos elementos-chave da comunicação da CGD enquanto banco “global”. Pode dar-nos uma ideia sobre em que ponto se encontra a estratégia da sede em relação a essa mesma diáspora?
O acompanhamento das comunidades portuguesas no exterior tem constituído um vector permanente da estratégia de internacionalização do Grupo Caixa Geral de Depósitos. A presença dum banco português com a reputação e solidez da Caixa, e a confiança que esta inspira, constitui um elemento de ligação com Portugal, no plano financeiro mas também no plano afectivo, que essas comunidades valorizam, sob condição de o banco lhe proporcionar um serviço de qualidade, como pretendemos. O desafio que se nos coloca é naturalmente o de manter o mesmo tipo de relação com as gerações seguintes, que tenderão à partida a ter uma ligação menos estreita com Portugal. Mais uma vez, o elemento decisivo para vencer este desafio é a qualidade do serviço proporcionado, a qualidade da relação com o cliente que conseguirmos estabelecer.
Que diferenças vê entre os serviços disponibilizados e a forma de trabalhar dos bancos em Portugal e em França?
Penso que quer o sistema bancário francês quer o sistema bancário português são genericamente constituídos por bancos sólidos, modernos e bem supervisionados. Eu diria que, no conjunto, ambos os sistemas fornecem a enorme panóplia de serviços bancários e financeiros que a generalidade dos sistemas bancários modernos fornecem. Mas são ambos muito diversificados no que respeita às estratégias seguidas por cada um dos bancos, pelo que não há uma resposta à pergunta que permita contemplar todos os casos.
A CGD succursale de France constitui essencialmente um banco de retalho. No entanto, conta com mais de 10000 empresários e artesãos (sobretudo portugueses e luso-descendentes) entre os seus clientes. Qual é a sua estratégia em relação às soluções mais específicas para empresas para os próximos anos?
A Sucursal de França da CGD é, de facto, basicamente um banco de retalho, mas incluindo neste conceito quer particulares, quer empresários em nome individual, quer pequenas e médias empresas. A actividade da Sucursal reflecte em larga medida a actividade da sua principal base de clientela, a comunidade portuguesa e de luso-descendentes em França: a Sucursal tem sempre procurado prestar os serviços bancários e financeiros que esta comunidade precisa, acompanhando o desenvolvimento pessoal e profissional dos seus elementos. Assim, à medida que a comunidade portuguesa, fortemente empreendedora, foi progredindo economicamente e começou a constituir empresas, a Sucursal foi apoiando este desenvolvimento, disponibilizando os produtos e serviços bancários necessários. A nossa intenção é prosseguir este rumo.
No passado dia 23 de Julho, os bancos portugueses passaram nos testes de resistência (stress tests). Entretanto, numa entrevista de há um mês, o Presidente da Associação Portuguesa de Bancos, António de Sousa, afirmou que a situação dos bancos é grave e que “mesmo que os mercados internacionais melhores, vai ser muito difícil os bancos portugueses financiarem-se no exterior”. Qual é a sua opinião?
Uma questão é a solidez e solvência dos bancos, outra, diferente, é o seu acesso a financiamento (liquidez). Os bancos portugueses são sólidos, bem capitalizados, isso não está em causa. O que acontece é que, fruto da crise financeira internacional e do seu mais recente desenvolvimento, a chamada “crise da dívida soberana”, os bancos dos países que são considerados pelos mercados como tendo problemas de endividamento, público ou privado, têm o acesso dificultado aos mercados financeiros internacionais ou têm que pagar um elevado sobre-custo para obter esse funding.
É esperada uma recessão em Portugal para 2011, em virtude do severo plano de austeridade previsto neste próximo orçamento de Estado. Que papel em concreto prevê que os bancos portugueses irão assumir para a recuperação da economia portuguesa?
Ao longo de toda a crise, a Caixa Geral de Depósitos, em Portugal, tem claramente seguido uma política de continuar a apoiar as famílias e as empresas, mesmo sacrificando uma parte da sua rentabilidade presente. Esse aspecto ainda recentemente foi evidenciado pelo presidente do Grupo, Eng° Faria de Oliveira, em entrevista à revista interna da instituição, acrescentando que essa política vai prosseguir em 2011, embora com algum necessário ajustamento de spreads em reflexo do aumento do custo de funding e da evolução da margem financeira e, naturalmente, continuando a diferenciar o pricing em função do risco.
