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Zoom... Manuel Rei Vilar

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Zoom... Manuel Rei Vilar
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Manuel Rei Vilar é investigador no Centre National de Recherche Scientifique (CNRS), e director da Residência André de Gouveia na Cité Internationale Universitaire de Paris, mais conhecida como “Casa de Portugal”. Nesta entrevista, Rei Vilar observa a evolução da cooperação científica entre França e Portugal durante os últimos trinta anos – universo que conhece como muito pouca gente – e explica-nos o potencial e os principais desafios da Casa de Portugal, carismática instituição franco-portuguesa criada e detida pela Fundação Calouste Gulbenkian, e cujas rédeas aceitou tomar desde finais de 2006.

CCIFP

 

Pode-nos contar um pouco do seu percurso em Portugal, antes de vir instalar-se em Paris?

Eu fiz a minha licenciatura em Engenharia Químico-Industrial no Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade Técnica de Lisboa, que terminei em 1969. Depois, convidaram-me para trabalhar no IST como assistente. Comecei a dar aulas de Física Atómica em Março de 1970 e iniciei uma tese de doutoramento no Centro de Química-Física Molecular (CQFM). Havia grandes dificuldades nesse tempo, devido à escassez de meios materiais e de equipament.

No dia 1 de Abril de 1974, iniciei uma regência de aulas teóricas sob a tutela do Professor Sales Luís, director do IST nessa altura e três semanas depois, deu-se o 25 de Abril. O IST, como toda a sociedade portuguesa, foi entrou em efervescência e foi sacudido por uma enorme vaga de mudanças a todos os niveis do Instituto. Durante cerca de dois anos, modificaram-se currículos, matérias e métodos pedagógicos nas várias disciplinas. Foi um periodo de grandes desafios.


Como deve saber, na Universidade Técnica de Lisboa, nomeadamente faculdades como o ISCEF e o ISCSPU foram objecto de revisões radicais de conteúdos pedagógicos, seguindo as ideologias de alguns sectores mais radicais durante a Revolução… Isso também aconteceu no IST?


Não, não aconteceu. Sendo o IST uma faculdade de ciências “duras” e com uma orientação fundamentalmente tecnológica, as coisas foram diferentes. Até porque o que o que estava em jogo não seria bem o mesmo que nas faculdades de ciências sociais, económicas e políticas. Dou-lhe um exemplo. Eu estava a dar a cadeira de Termodinâmica, uma disciplina científica que tem três princípios fundamentais: o primeiro, o segundo e o terceiro. Nem mais nem menos, é mesmo assim! Entretanto, uma semana depois do 25 de Abril, eu entro na aula e há um aluno que me diz: “Então nós vamos continuar a dar a mesma coisa?!” E eu respondi-lhe que sim, porque a termodinâmica é baseada em três princípios, já os tinha antes do 25 de Abril e continuaria a ter depois do 25 de Abril e é ensinada assim em qualquer parte do mundo.

O que acontecia era que no IST, tal como em todas as universidades portuguesas da altura, havia sempre um aspecto político importante que estava associado à Escola. Até ao 25 de Abril, os directores não eram, como hoje acontece, eleitos pelos seus pares mas nomeados e impostos pelo governo. Ora, acontecia que o nosso Director era justamente o chefe do meu Departamento. Daí o sentido da pergunta daquele estudante...

No entanto persistiam no IST uma série de arcaísmos que impunham que se procedesse a um verdadeiro trabalho de modernização, particularmente no nivel do ensino. Na confusão desses dias, o Prof. Sales Luís teve de abandonar o Instituto e a nossa equipa, uma equipa jovem, acabou por ter “carta branca” para iniciar essa modernização das Cadeiras.


Em que consistiu então esse trabalho de modernização pedagógica e científica do IST?

Mais do que o conteúdo das matérias propriamente dito, o grande problema residia nos métodos pedagógicos adoptados, que em muitos casos estavam antiquados e anquilosados. A estruturação das matérias e a maneira de transmitir as ideias e conceitos da Fisica aos alunos de Engenharia tinha de ser melhorada. Lembro-me por exemplo, que nessa altura introduzimos a utilização de filmes pedagógicos de alguns minutos, que facilitavam a compreensão de determinados conceitos, o que era algo impensável antes.

O ensino no departamento de Física, tinha-se tornado repetitivo e “livresco”. Os exames serviam para responder ao que nós chamávamos “perguntas calistas”, que eram sempre as mesmas. Na verdade, valorizava-se muito mais a memória do estudante do que a sua capacidade de raciocínio. Tratava-se portanto de um ensino que, muitas vezes era retrógrado. Obviamente que isto não era sistematico noutras cadeiras ou Departamentos. Sempre houve no IST professores que eram excepcionais, tanto como pessoas como profissionais. Isso reflectia-se obviamente nas cadeiras que davam.


Há pouco referiu que fez a sua tese de doutoramento com grandes dificuldades, por força da falta de equipamento. A logística era um problema no IST antes da Revolução?

Era, e de certa forma era o espelho de um dos aspectos mais graves, que importava corrigir. Este tinha a ver com a experimentação, que sempre foi e será fundamental em Ciência. Para que se tenha uma ideia, os laboratórios de aulas praticas do departamento de Física eram obsoletos e encontravam-se nessa altura pura e simplesmente fechados. Isto num dos Institutos mais conceituados do país, com um prestígio nacional comparável talvez aqui em França com a Ecole Polytechnique.

Havia muitos departamentos que funcionavam bem, e que foram progressivamente modernizados. Infelizmente, outros não o tinham sido. Por isso, o 25 de Abril constituiu uma abertura e uma oportunidade para acelerar e generalizar esse processo no Instituto.


Até quando ficou a trabalhar no IST?

Fiquei efectivamente até 1986. Em Setembro de 1976, desses mesmo ano, vim destacado para Paris, com uma equiparação a bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Cientifica, e comecei os meus trabalhos de Doutoramento no Groupe de Physique des Solides da Universidade de Paris 7.


O que o fez decidir “emigrar” para Paris nessa altura?

O que me fez vir para França, foi o facto de eu ter começado a trabalhar com o Professor Lopes da Silva (até há pouco Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas) que ele proprio, tinha feito a sua tese aqui em França. Nessa altura um número considerável de teses de investigadores portugueses eram realizadas em França, Inglaterra e algumas também nos EUA. Vim para França por sugestão do meu Director de Tese o que foi natural, pelas ligações já existentes entre o meu laboratório e alguns laboratórios franceses.

A maior parte do tempo passava-o cá em Paris, dando também aulas na Universidade de Paris 7. Apesar da minha formação de base ser a Engenharia Químico-Industrial, a minha tese foi feita na área de Física do Estado Sólido. Eu penso que é sempre muito interessante estar situado em interfaces disciplinares, esta entre a Química e a Física, porque se observam as coisas de dois ângulos diferentes. De qualquer forma durante a minha tese e até hoje, continuei a estar ligado ao IST e ao CQFM por meio de projectos internacionais e a colaborar com os meus antigos colegas.


Saiu de Lisboa para Paris, na altura em que o processo revolucionário estava terminado...

Sim para França em Setembro 1976. A vida em Portugal e nas Universidades começava a acalmar e a estabilizar-se. Foi por isso que achei esse momento propício para me voltar dedicar à minha tese e aos meus trabalhos de investigação. É verdade que entre 1974 e 1976, era difícil pensar-se noutra coisa que nos alunos, no ensino e nas estruturações administrativas e pedagógicas do IST. A agitação e o periodo de renvindicações dos estudantes tinha acalmado depois de ter passado por periodos extremamente dificeis. E é preciso recordar, que a dado momento da agitação no IST, uma Comissão Directiva era constituída unicamente por alunos, sem qualquer professor! Por isso a componente investigação e o doutoramento ficavam para um segundo plano.


Essa sua vinda coincidiu ainda com a vinda de muitos outros portugueses?

No meu caso, foi devido a outras circunstâncias. Como lhe disse, vim para cá porque este era o destino de boa parte dos doutorandos na minha área nessa altura. Vim em condições muito diferentes de muitos portugueses que vieram n vaga de emigração em massa dos anos 60-70, que foi uma emigração por razões económicas. Nessa altura, as pessoas saíam do país porque não tinham esperança no futuro. Nem para eles nem para os filhos. Eu tenho de facto uma grande admiração por todas essas pessoas que, num momento desesperado, tiveram de deixar o país a “salto” para iniciarem uma nova vida. Esses portugueses são verdadeiros heróis.



Tem trabalhado entre dois sistemas de ensino – o francês e o português - durante mais de 30 anos. Que diferenças vê na evolução dos sistemas de ensino e investigação científica nos dois países?


Como lhe disse antes, nessa altura era difícil fazer-se investigação em Portugal mesmo se no Instituto Superior Técnico eramos considerados “privilegiados” em relação a outras Escolas. Se um aparelho se avariava era muito complicado mandá-lo arranjar. Era uma situação, onde por um lado havia investigadores de qualidade e por outro, não existiam as ferramentas adequadas. Mas a pouco e pouco, com muita vontade e persistência, conseguiu-se mudar o rumo às coisas. Houve mesmo no meu percurso alguns episodios quase caricatos para que isso se tornasse possivel.


Pode partilhar connosco um desses episódios, a título de exemplo?

Com certeza que posso! Como sabe, eu quando vim para cá fazer a minha tese de Doutoramento, fi-la na área da Física das Superficies. Ao mesmo tempo eu mantive sempre uma forte ligação com o meu antigo laboratório no IST. O que acontece é que nós construímos aqui na Universidade de Paris VII, um espectrometro de perda de energia de electrões, um aparelho extremamente sofisticado para se fazer esse tipo de análises dado pretender-se dele uma grande sensibilidade para detectar reduzidas quantidades de matéria. Este projecto ja foi feito no ambito de um acordo de financiamento luso-francês.

Quando me convidaram para trabalhar pude adquirir um novo aparelho. Estávamos em 1985, um ano antes de Portugal aderir à União Europeia e prevíamos já os fundos estruturais europeus de apoio à ciência, pelo que poderia ser uma boa oportunidade para reforçarmos a logística do nosso laboratório no IST. Assim, pensámos o seguinte: já que eu tinha um novo equipamento, os meus colegas do IST podíam levar para Portugal o meu equipamento antigo por mim construído, para que se pudesse demonstrar o potencial científico do laboratório e solicitar mais facilmente um equipamento também mais moderno para a equipa portuguesa. Visto isto, desmontámos a aparelhagem antiga que os meus colegas transportaram para Lisboa num carro do IST, por sinal a precisar de reforma, numa viagem de 2000 quilómetros... evidentemente, sem as auto-estradas que existem hoje. Pode imaginar a aventura que foi! Depois de alguns furos nos pneus, os nossos “herois” desembarcaram o aparelho em Lisboa.


Com efeito. Mas este tipo de situações terá começado a rarear com a adesão de Portugal à CEE…

Sim, realmente a partir de 1986, ao mostrarmos que se tinha avançado e que tínhamos ganho competência nesse dominio, utilizando aparelhagem moderna, as coisas progrediram também mais rapidamente. Nos anos 90, graças à actividade dos meus colegas, o CQFM atingiu um nível de excelência a nível europeu. Estas aventuras e outras, talvez desconhecidas, serviram para que haja hoje uma produção científica de qualidade em Portugal com trabalhos de investigação inscritos nas melhores revistas científicas do mundo.
A famosa parceria MIT-Portugal, começada em 2006, e na qual o IST é uma instituição-parceira, também não é por acaso. Por outro lado, o esforço da União Europeia no campo da investigação científica e de todos os seus estados-membros, fez com que a diferença entre os níveis de investigação entre Portugal e a França tenda a atenuar-se.


Falemos um pouco da Residência André Gouveia, mais conhecida como “Casa de Portugal”. Como é que começou a sua história com esta instituição? Trata-se de uma relação recente?

Sim e não. A minha relação com a Casa de Portugal começou quando eu vim para a Cité Internationale Universitaire de Paris (CIUP) em Outubro de 1976, e me tornei residente,curiosamente, não da Casa de Portugal mas da Fundação Deutsch de la Meurthe, outra Casa da CIUP que é um sítio extraordinário. Vivi aqui durante três anos, o que me permitiu descobrir a CIUP, uma entidade única no mundo.


A CIUP, única no mundo? Em que sentido?

Nós estamos habituados de pensar “Cidade Universitária” como um campus universitário, como por exemplo a Cidade Universitária de Lisboa que, na verdade, é apenas o campus da Universidade Clássica de Lisboa.
Mas a CIUP é um conceito muito original, que decorre da sua história também ela muito original. Em 1920, depois da Primeira Grande Guerra, um grande industrial francês, Émile Deutsch de la Meurthe quis ser o mecenas de uma obra social. E pediu conselho a um seu amigo, o Reitor da Universidade de Paris, que lhe falou da necessidade de criar alojamentos para estudantes. Com esta ideia, os dois homens foram falar com o ministro da Instrução Pública que por sinal foi também o inventor da mudança da hora, hábito que se viria a institucionalizar até aos nossos dias, duas vezes por ano: era o senhor André Honnorat.

Este senhor tinha de facto uma visão universalista. Assim, concordou com a ideia de Deutsch de la Meurthe de fazer uma cidade universitária, mas ele quis que esta estivesse a um nível superior. Que fosse concebida de forma a integrar estudantes de todas as nacionalidades do mundo, fomentando convívio, cruzamentos e miscigenação, a fim de criar laços de amizade internacionais entre futuros quadros qualificados, elites de amanhã, a fim de se evitar desgraças como a Primeira Guerra Mundial… que tinha terminado dois anos antes, com centenas de milhares de vidas ceifadas em pleno solo europeu.


Quer dizer que mais do que um projecto de apoio à Universidade de Paris, a CIUP nasceu como um projecto
fundamentalmente humanista e universalista?


Exactamente. E pessoalmente não tenho conhecimento de nenhum projecto no mundo com a mesma ambição e filosofia de base. Nem mesmo o próprio programa Erasmus, que hoje todos conhecemos. O objectivo da CIUP não era um objectivo a nivel europeu mas era universal, basta lembrar a CIUP alberga hoje estudantes de 140 países!


No entanto, o perfil dos estudantes que vinham cá nos anos 70 é diferente dos estudantes de hoje…

Sim, de facto é ligeiramente diferente, justamente porque neste momento há mais estudantes de Master, graças à abertura que a União Europeia trouxe aos estudos universitários. Anteriormente, a maior parte dos estudantes que vinham para a CIUP eram doutorandos. Entretanto, esta situação está a modificar-se muito, porque em todos os países da U.E, hoje em dia, já se fazem doutoramentos, com equivalência internacional. Além dos Erasmus e dos doutorandos que continuam a vir, outros residentes são pósdoutorandos, artistas, médicos em estágio e desportistas de alto nível. Por isso, de facto, o perfil dos residentes da Casa de Portugal é diferente do que foi no passado. De qualquer forma, o periodo maximo de residência na CiuP continua a ser três anos.


O que considera ter ganho nesses três anos em que residiu na CIUP?

Ganhei antes de mais aquilo que todo o residente ganha quando vem para aqui: um contacto quotidiano com várias nacionalidades e disciplinas e o resultado dessa vivência. Ganhei muitos amigos, de várias nacionalidades e de diversas áreas universitárias. Efectivamente, a diversidade dos residentes da CIUP não se cinge unicamente às nacionalidades mas também às diferentes formações académicas. E esse contacto com esta diversidade é extraordinariamente importante para um jovem que entra na idade adulta e desenvolve a sua formação de pessoa humana, unindo às competências profissionais que está a adquirir a uma visão mais global do mundo.


Mantém ainda hoje o contacto com essas pessoas?

Mantenho, sim. Tenho amigos que como eu ficaram em Paris e outros que partiram, assim como amigos franceses que sempre viveram cá. Não guardei dessa altura muitos amigos portugueses, porque a minha vida diária também não me dava muito tempo para frequentar a Casa de Portugal.



O que o fez aceitar o desafio de assumir a direcção da Casa de Portugal?


Por um lado, a ligação à CIUP e o saber que a Casa de Portugal tinha sido criada pela Fundação Calouste Gulbenkian, que é uma entidade a quem eu devo uma parte importante da minha formação: foi com uma bolsa dessa instituição que eu pude financiar os meus estudos do liceu. Nessa altura havia bolsas para o ensino secundário, hoje há cada vez menos… o que é pena. Por outro lado, um projecto também na interface entre dois países tão importantes para mim como a França e Portugal.

Finalmente, o projecto de reconstrução da Residência André de Gouveia , subsidiado uma vez mais pela Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com a Caixa Geral de Depósitos, Banco Comercial Português e Fundação Oriente. Era um projecto extremamente arrojado, metendo em jogo uma arquitectura diferente no Parque da Cité aliada à modernização desta casa, aumentando consideravelmente o numero de quartos, que passou de 120 para 170, e as suas condições de conforto (casa de banho privativa, frigorifico e ligação ilimitada à internet). Este projecto, tão importante para todos nós portugueses, era deveras aliciante. Tudo isto me levou a me candidatar a este lugar e olhe, acabei por ser escolhido para dirigir esta Casa.


Quando assumiu a direcção da Casa de Portugal, em Novembro de 2006, fê-lo numa altura em que esta se deparava com grandes desafios...

Grandes desafios, efectivamente! Havia de facto muita coisa para fazer. Primeiramente, as obras para terminar. Quando cheguei, a casa estava em obras de cima a baixo. Apontámos para a data de abertura ser o dia 5 de Janeiro de 2007, o que conseguimos. A partir dessa data, progressivamente, os andares foram ocupados pelos residentes que coabitaram com as obras quase durante um ano inteiro. Os primeiros residentes sofreram evidentemente com isto, mas o ambiente que reinava entre eles era excepcional. Felizmente, durante todo este periodo pude contar com a dedicação e o apoio da minha equipa, à qual confio uma grande parte da actividade quotidiana da casa. Este apoio permite-me conciliar a minha profissão de investigador com esta actividade em paralelo.

A segunda necessidade era de fortalecer a identidade portuguesa desta Casa, ao fim de um fecho de dois anos e meio para renovação. De facto, esta casa continua a representar aqui em Paris, Portugal e a Fundação à qual está ligada. O facto da Residência André de Gouveia voltar a ter um Director português e um Conselho de Administração, dirigido pelo Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, é importante para a conservar sua identidade nacional. Actualmente, a administração da Casa depende financeiramente da CIUP, o que a diferencia da situação anterior.

Por outro lado, ainda há muita coisa para fazer como por exemplo a renovação dos espaços culturais. Há o teatro para reconstruir e a sala polivalente para finalizar. Uma biblioteca para ser criada no antigo espaço das garagens. Temos de conseguir restaurar esta casa completamente e para isso eu conto com a juda de todos os portugueses, sobretudo os que se encontram aqui na região parisiense. O que constitui um grande desafio, quando pensamos que temos um empréstimo, contraído pela CIUP para a realização das obras de renovação, que pagamos todos os meses.


Existe uma associação de antigos residentes da Casa de Portugal?

Não, efectivamente, ainda não existe. E é esse justamente um dos projectos mais importantes que tenho em vista durante o meu mandato. Para isso já comecei a contactar uma série de antigos residentes para podermos criar essa associação. Talvez haja antigos residentes que leiam estas linhas e o que lhes pedia, era de entrar em contacto comigo, de forma a consolidarmos as bases desta associação. Jà existem esboços de regulamentos, mas ainda não há nada formado. Por outro lado, era preciso continuar a manter uma componente fundamental da identidade da RAG, que é a sua propria história. Por esta casa passaram muitos residentes que hoje assumem responsabilidades a varios niveis em Portugal, França e outros paises e que ainda hoje guardam dela uma recordação muito calorosa.

A título de curiosidade, em Outubro de 2007 tive a oportunidade de conhecer uma antiga residente que hoje é inclusivamente dirigente de uma empresa que é membro fundador da CCIFP. Trata-se da Dra. Graça Correia da Silva, directora-geral do Banco BPI, e que estava na minha mesa aquando de um jantar-debate organizado pela CCIFP em parceria com a Caixa Geral de Depósitos, sobre o futuro da banca portuguesa. E que, pelo que sei, também foi entrevistada para o site da CCIFP há uns meses atrás. Espero bem que um deste dias a Associação dos Antigos Residentes da Residência André de Gouveia fique criada.


Como sabe, a CCIFP tem apoiado e divulgado as actividades culturais da Casa de Portugal, bem como realçado o valor de possíveis acções de mecenato junto dos seus membros…

É verdade. E eu, em nome da Residência posso afirmar-lhe que estou profundamente grato à CCIFP por o interesse e apoio e pela forma que nos está a ajudar neste momento delicado. Entretanto, penso também que seria positivo para as nossas duas instituições que esta nossa relação fosse ainda mais longe, numa actividades de parceria, tal como já o fazemos hoje com o Instituto Camões e com a Fundação Calouste Gulbenkian.

Eu julgo que, de facto, a CCIFP é uma instituição que consegue reunir de forma excepcional uma grande sinergia na região parisiense, o que em grande medida se deve à sua influência junto dos empresários portugueses e luso-descendentes aqui residentes. E se queremos desenvolver a Casa de Portugal e ao mesmo tempo manter e fortalecer a sua identidade, com quem é que podemos contar senão justamente com essa sinergia portuguesa, constituída por personalidades portuguesas e lusodescendentes que trabalham todos os dias com a CCIFP e nas empresas aderentes?


E o que pensa que a CCIFP poderá fazer futuramente, em conjunto com a Casa de Portugal?

Por um lado, julgo que com a CCIFP poderá formar uma parceria com a Residência André de Gouveia. Temos aqui um espaço propício para criar eventos e manifestações empresariais tanto na nossa sala polivalente como no Teatro, após renovação. Também, dentro da CIUP não faltam lugares para estacionar viaturas, nem espaços verdes no exterior para confraternizar nos intervalos das actividades. Todas as pessoas que vêm ver a sala polivalente pela primeira vez ficam maravilhadas com a luminosidade e a modernidade do espaço que se harmoniza perfeitamente com o grande painel dos Descobrimentos, ali incorporado, evocando a nossa história, a nossa cultura e as nossas raízes.

Em segundo lugar, e para além de eventos de grandes dimensões, existem aqui diversas salas, servidas de mesas, cadeiras, e outros suportes necessários a diferentes realizações de natureza mais técnico-profissional ou pedagógica. Estas salas poderão ser cedidas à CCIFP para levar a cabo, por exemplo, acções de formação ou cursos de português para os seus membros.

Por outro lado, assim que pudermos concluir o Teatro, localizado mesmo ao lado da sala polivalente, a CCIFP poderá passar a utilizar um espaço complementar ao do da sala. Poderá, por exemplo, realizar um evento empresarial na sala polivalente, e logo a seguir deslocar os convidados para a sala adjacente, do Teatro, para que estes assistam a um concerto de fado ou de música clássica, com espaço para uma centena pessoas. Para estes espaços, porém, necessitamos de reunir fundos para os terminar…
Em suma, eu penso que nós, na Casa de Portugal, temos muitas contrapartidas para dar em troca da ajuda que a CCIFP ou outras instituições nos prestarem. Temos a possibilidade de constituir uma verdadeira vitrina de Portugal, não só ao nível cultural e social, mas também a todos os outros níveis: académico-universitàrio, económico-empresarial, político, etc..

E tudo isto, em pleno coração de Paris, a segunda maior cidade portuguesa do mundo.

CCIFP, le 23 juillet 2008