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Zoom... Nélia Martins & Carlos Pereira

Zoom... Nélia Martins & Carlos Pereira
Zoom... Nélia Martins & Carlos Pereira
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Nélia Martins e Carlos Pereira, da Aniki Communications, realizaram e produziram recentemente um filme de 16 minutos intitulado “Empresários Portugueses de França”, a pedido da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal . Trata-se da primeira produção audiovisual exclusivamente consagrado à realidade dos empresários portugueses e luso-descendentes em França. Foi publicamente aprensentado em Lisboa aquando do Fórum dos Empresários das Comunidades Portuguesas, e encontra-se actualmente disponível online, em www.aniki-communications.com.

 

Como é que vos surgiu a ideia de realizar este filme ?

Nélia Martins (NM) : O filme resultou de uma encomenda da parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (SECP) do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Como pôde ver, ele tem cerca de 16 minutos e está construído em três partes. Temos uma primeira “histórica” parte com histórias de empresários portugueses emigrados há 30 ou 40 anos. São modelos de sucesso, de pessoas cuja única arma que eles tinham para vencer na vida era o trabalho e a força de vontade. Numa segunda parte, procurámos mostrar a diversidade das empresas portuguesas aqui em França, que é uma realidade pouco conhecida pelas pessoas de uma forma geral. Porque o homem português afinal não trabalha só na construção civil, e as mulheres não são apenas donas de casa. Por fim, numa terceira parte, procurámos mostrar o peso económico que estes empresários têm em França, bem como aquele que podem ter em Portugal.


A escolha musical foi variada. Numa primeira parte acompanhada por uma música mais “épica” e a segunda mais “jazzística” e descontraída, por exemplo…


NM: É isso mesmo. Quando escolhemos uma música fazemo-lo em consonância com as emoções que queremos transmitir. Na primeira parte procurámos transmitir a ideia de “epopeia” portuguesa, da aventura dos primeiros emigrantes. Na segunda parte, a música descontraída procura mostrar uma comunidade integrada, e sobretudo descomplexada.
Carlos Pereira (CP): Se reparar, a entrada e a saída do filme tem a mesma imagem: um globo terrestre, com uma espécie de satélite à volta. A ideia era mesmo a de dar a ideia de “salto”, uns que imigraram para cá, outros para lá, justamente um pouco à aventura. Ou como dizia o José Oliveira à entrada, “atirando-se ao mar” que é o mesmo que dizer “atirar-se para o desconhecido” apenas como a sua força de trabalho como aliada.


Que dificuldades sentiram na realização e na produção deste filme?

NM: Relativamente à realização não sentimos nenhumas dificuldades por aí além. A edição é trabalhosa para toda a gente, e os contactos com as fontes fizeram-se com alguma fluência. Quanto à produção, penso que o Carlos poderá falar melhor do que eu.

CP: Ora bem, relativamente à produção do filme, a primeira dificuldade prende-se àquela primeira pergunta inevitável que sempre nos faziam: quanto custa? Isto porque esta comunidade está muito habituada em que lhe venham vender coisas. Ou porque vem à associação local que vai fazer uma festa, ou porque vai um jornal qualquer vender-lhes publicidade ao quilo, etc. Ora nós estávamos a fazer um trabalho jornalistico.

A segunda dificuldade prendeu-se com a necessidade constante de apresentação do produto. É necessário perder tempo a falar do produto, até conseguirmos apanhar estas informações que apanhamos aqui e ali para fazer o nosso trabalho. Por exemplo, eu apresentei este filme em Portugal a alguns amigos e potenciais clientes da Aniki Communications no dia anterior do Fórum onde foi apresentado. A reacção deles foi de total surpresa. Foi muito mais fácil fazer negócio com eles, depois de eles verem o vídeo. Porque  a verdade é que as pessoas em Portugal desconhecem completamente esta realidade. Se vamos pôr o filme online, é de certa forma para mostrar o que nós sabemos fazer, surpreender as pessoas e obviamente encontrar novos negócios

Outra coisa tem a ver, uma vez mais, com a questão do valor dado à imagem. Uma coisa que estas empresas não estão preparadas ainda, nesta primeira geração, a trabalhar a imagem. Por exemplo, um dos nossos produtos é o de criar filmes institucionais para as empresas. Ora, sobre isto posso dizer-lhe que não há grande receptividade na primeira geração: eles acham que simplesmente não vale a pena. Já a segunda mostra-se muito receptiva aos novos suportes de comunicação, televisão, Internet, etc. A primeira não. Eu penso que já na segunda geração a questão da imagem é mais importante.



Como explica esse desinteresse da primeira geração de empresários franco-portugueses pela imagem?

CP: E eu acho que isto tem a ver com a questão da cultura do trabalho, de que a Nélia falava há pouco. Eles chegaram a lugares importantíssimos e criaram mesmo alguns impérios a trabalhar. A maior parte desta gente, ainda hoje, levanta-se muito cedo, logo de madrugada, trabalha muito. Eles não chegaram aqui por acaso. Há aliás uma expressão no filme, utilizada pelo empresário Diamantino Marto, e que me pareceu muito boa para definir este estado de espírito. Ele dizia que, no passado, andou “de dia e de noite com uma faca nos dentes”.
No entanto, uma coisa parece certa: se por um lado esta primeira geração se interessa pouco pela sua imagem, por outro lado, demonstra um grande interesse em mostrar-se, em mostrar o que conseguiu, e como conseguiu, após décadas de sacrifício. O que é de certa forma, paradoxal.

É diferente entrevistar empresários de entrevistar um dirigente de uma associação cultural, por exemplo?
NM: Sim, desde logo, as perguntas são diferentes. Mas claro que isso depende do trabalho de edição que vamos fazer. A nossa estratégia é a de filmar por excesso, e depois recortar e seleccionar. Este filme apenas foi possível porque tínhamos muitas horas filmadas, onde a cada entrevistado fizemos muitas perguntas sobre os mais diversos assuntos, de maneira a podermos utilizar isto depois para vários tipos de programas. E aí então usamos o material consoante a natureza do programa. Se for o França Contacto tendemos a escolher um conteúdo mais cultural. Quando era o Pessoas & Negócios, as perguntas eram obviamente mais ligadas aos negócios.


Que reacções têm ouvido relativamente a este filme?

CP: Ainda muito poucas, pois o filme ainda só foi apresentado em Lisboa, precisamente no Fórum Mundial dos Empresários das Comunidades, organizado pela SECP. E aí teve um bom acolhimento, perante um público proveniente de diversos países. E há inclusivamente alguns negócios que poderão sair daqui, outras Câmaras de comércio que nos podem pedir um produto semelhante. Teremos é que começar tudo de novo, nomeadamente em termos de recolha de material.

Houve também uma referência que fizeram não só aos empresários mas igualmente aos autarcas, não é?
CP: Foi, no fim, de maneira a mostrar que o peso económico de que estava a falar a Nélia também é um peso politico. De forma a mostrar que a própria comunidade, como um todo ganhou peso no seio da sociedade francesa.


A Nélia também é luso-descendente? Nasceu aqui em França?


NM: Sim. E antes de vir aqui trabalhar eu era estudante. E já tinha tido algumas experiências na comunicação antes, sempre sobre a comunidade portuguesa


Esta experiência fê-la olhar para a comunidade portuguesa em França de outra maneira?


NM: Sim, esta experiência fez-me conhecer outra dimensão da comunidade portuguesa, nomeadamente a sua face empresarial. Eu pessoalmente não a conhecia.


Falemos um pouco da Aniki Communications. Como é que ela nasceu e que tipo de serviços presta ela hoje exactamente?

CP: A Aniki nasceu como uma empresa de comunicação especializada na comunicação da comunidade portuguesa, e que pretende ser a “melhor do mundo” neste domínio. Para isso, contamos obviamente com a nossa experiência de 25 anos a trabalhar com essa mesma comunidade. A nossa empresa é a única dentro deste nicho de mercado, do nosso conhecimento, que inclui nos seus serviços a produção de conteúdos televisivos. Apesar disso, o nosso “produto” mais conhecido ainda é um órgão de imprensa escrita, o semanário LusoJornal, que tem sido até agora o nosso grande cartão de visita.

Por outro lado, tratamos igualmente da comunicação institucional e imagem de alguns clientes. Por exemplo, fazemos a assessoria de imprensa de Mário Lopes, conhecido cabeleireiro português em Paris. Ele tem ido regularmente a Portugal, já participou em programas de televisão, programas de rádio e dá entrevistas a revistas e jornais, e esse trabalho é feito por nós. Também produzimos vídeos institucionais para empresas.

Por fim, temos um terceiro tipo de serviço, que é a organização de eventos relacionados com a comunidade portuguesa. Por exemplo, estamos agora a trabalhar na comunicação e imagem da Miss Portugal em França. Trata-se de um alargamento da Miss Portugal Auvergne que jà fazíamos, e que terá lugar no dia 5 de Dezembro.

Porque é que a Aniki Communications, assim como várias outras empresas de comunicação consagradas à comunidade portuguesa de França (entre as quais várias são membros da CCIFP tal como vocês), nasceu há quatro ou cinco anos e não há dez ou quinze, por exemplo?

CP: Porque antes não seria viável. Antes de 2004, digamos, há uns dez anos atrás eu nunca poderia teria criado o Lusojornal, por exemplo.


Porquê?

CP: Porque ele teria de dirigir-se unicamente à primeira geração. Isto porque a segunda geração não estava nada ligada a Portugal. Felizmente, muita coisa aconteceu nestes últimos dez anos que alterou esta tendência: a Expo 98, o Prémio Nobel do José Saramago, o percurso internacional dos Madredeus, o percurso da selecção nacional de Futebol, o Euro 2004, etc.. Com estes novos factores criou-se uma ligação muito maior entre aquilo que já vamos podendo chamar de “terceira geração” e o país dos seus pais e avós. E isto tem tido repercussões no resto da comunidade.

O que eu quero dizer é que, em termos da nossa clientela, existe aqui um hiato, um fosso geracional, que corresponde mais ou menos à faixa etária dos portugueses entre os 25 e os 35 anos. Esta é constituída por luso-descendentes que não se interessam, ou que se interessam muito pouco, por Portugal. Trata-se de uma geração que durante a adolescência ia a Portugal levada pelos pais, a ouvir grupos de folclore no rádio do carro iam no caminho todo para lá e para cá. E que chegados a Portugal, iam ajudar os pais a construir a casa de férias. Estes jovens foram crescendo, até que um dia atingiram a maioridade começaram a não querer ir, preferindo passar as férias com os amigos aqui em França.


Quer dizer que existe uma base de audiência com menos de 25 anos?


CP: Exactamente, da chamada “terceira geração”. Muito grande.



 

No estudo sobre empresários franco-portugueses que a CCIFP realizou recentemente, constatámos o nascimento de uma terceira geração de empresários, muitos na área da construção e desenvolvendo a sua actividade fora da região parisiense. Do contacto que tem desenvolvido com os empresários, como interpretam este fenómeno?

CP: Eu penso que se trata de uma geração que está a começar a investir naquilo que eram negócios dos patrões dos pais. Quanto ao facto de estarem a aparecer fora da região parisiense – e não tanto na região parisiense como acontece com a maioria das empresas da primeira geração – eu penso que a primeira geração era muito isolada. Na região parisiense, as pessoas estavam concentradas e acabavam por se conhecer de uma maneira ou doutra pelo que se traziam umas às outras para o mundo dos negócios por efeito de arrastamento.

Na província, isso não acontecia tanto, havia mais isolamento. E por isso, os portugueses de França vivendo fora da região parisiense foram-se acomodando ao trabalho por conta de outrem. Já a segunda e a terceira, essa já item vindo a investir e vão criando as suas próprias empresas. Se reparar, a aquisição de casas na comunidade portuguesa é muito maior em termos proporcionais que na média francesa, o que se deve em grande medida ao apoio dos pais para que os filhos poupem e invistam. Esse espírito depois repercute-se na criação de empresas.


A família continua a ter um papel importante no tecido empresarial português em França…

CP: Não tenha dúvidas disso. Os pais motivaram os filhos a comprar as suas próprias casas,  e da mesma maneira assumiram um papel fundamental para que os filhos criassem as suas próprias empresas. Se for perguntar aos filhos como é que criaram as suas empresas, eles vão de certeza dizer algo como: “Os meus pais ajudaram-me muito!”


A Nélia tem 27 anos, pelo que se pode dizer que se situa entre a segunda e a terceira geração de luso-descendentes. Como é que os seus próximos têm reagido ao trabalho que realizou?

NM: Entre os meus próximos, os meus pais por exemplo, não são empresários. Mas reconheceram-se na força de vontade transmitida por eles, e na sua filosofia do trabalho. Ou como diria o poeta Fernando Pessoa, nessa convicção de que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Quanto aos meus amigos luso-descendentes, tal como eu, também eles não conheciam esta força empresarial que existia em França, e muitos ficaram admirados por verem assim tantas empresas portuguesas em França em tantos ramos de actividade.


E os seus amigos franceses?


NM: Ainda não viram porque a versão francesa do filme ainda não foi produzida. Sê-lo-á em breve, e possivelmente integrada no site.

Têm algum novo projecto deste tipo em mente, sobre empresários luso-descendentes?

CP: Para ser franco, eu acho que ficou um vazio desde que o projecto de programa do Pessoas & Negócios desapareceu juntamente com a CLP-TV. Era um espaço privilegiado de escoamento para produções audiovisuais sobre a comunidade empresarial franco-portuguesa, que deixou de existir, e que penso que dificilmente terá equivalente num futuro próximo. Veremos o que o futuro nos reserva.


A Aniki Communications aderiu à CCIFP como membro executivo em Agosto de 2008. Qual é a sua opinião sobre a instituição e que futuras colaborações antevê entre esta e a vossa empresa no futuro?


CP: Eu penso que a CCIFP é fruto de uma iniciativa importante, que fazia falta. E veio colmatar um vazio de projectos na comunidade, que não existiam ou não existem ainda. E isto era incompreensível. Repare que antes do LusoJornal esta comunidade não tinha ainda um semanário, ao passo que o Luxemburgo já tinha um há vinte anos. Da mesma maneira que era incompreensível existir uma Câmara de Comércio Belgo-Portuguesa na Bélgica há 75 anos, e aqui não haver nenhuma. Uma comunidade tão grande, com este peso económico e político… 

Portanto, eu julgo que não nos conhecemos a nós próprios. E a Aniki Communications tem justamente essa missão: dar-nos a conhecermos a nós próprios. E para isso uma Câmara de Comércio, como a CCIFP, é fundamental. Assim, o interesse que uma empresa como a minha pode ter na CCIFP é uma mise en réseau dentro da comunidade portuguesa, domínio temático e de mercado onde somos especializados. Nesse sentido, nós precisamos constantemente de novos contactos e novos encontros. E isso a CCIFP pode dar.

Paris, 21 janvier 2009