Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.
Pedro Mendes dos Santos é investigador universitário em Gestão, estando em vias de finalizar o seu trabalho de Doutoramento sobre "A formação de estratégias num contexto de criação de redes empresariais" pela Universidade de Aix-Marseille III. Um estudo directamente baseado na sua experiência profissional no seio da CCIFP, onde é responsável pelo departamento de estudos e comunicação desde há três anos. Nesta entrevista, levanta uma ponta do véu sobre os primeiros resultados da sua tese, que estará concluída pelo Verão de 2011.
Como é da praxe neste nosso espaço Zoom, pode contar-nos um pouco do seu percurso profissional até hoje ?
Eu devo começar por dizer que eu próprio tenho um perfil profissional “híbrido”, digamos assim, em consequência de um percurso que a maior parte das pessoas que conheço classifica de “atípico”. Por volta dos meus 20 anos, como tantos jovens hoje o fazem, deixei o Lisboa para completar os meus estudos no âmbito do Erasmus no Instituto de Estudos Políticos de Estrasburgo. Eu que estava a formar-me em Comunicação Social – Jornalismo no ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, recebi assim igualmente em Ciências Políticas, formação que reforcei no domínio mais específico das Relações Internacionais e dos Estudos Europeus, ao realizar um duplo mestrado na área em parceria entre as minhas duas universidades, e entre os dois países. Enquanto que no ISCSP, a formação em Relações Internacionais era mais centrada em Sociologia e em Direito, em Estrasburgo, o ênfase era dado na História Contemporânea, uma metodologia muito próxima – na minha opinião – do Jornalismo de Investigação.
Regressei a Portugal em 2003, onde fiquei três anos a trabalhar entre o mundo editorial e o jornalismo de investigação. Depois vim para Paris, onde vivo há quatro anos, e onde fiz um ano de formação em inteligência económica (uma área em que o Dr. Philippe Clerc, um dos entrevistados deste espaço Zoom, conta entre os maiores especialistas em França) e onde actualmente exerço dois ofícios: por um lado sou o responsável de comunicação e estudos na CCIFP, por outro, estou a terminar uma tese de Doutoramento em Gestão, sob a direcção do professor Philippe Baumard (que é igualmente membro do Conselho Estratégico da CCIFP), utilizando metodologias inspiradas na minha experiência jornalística, de tipo etnográfico.
De que trata este seu trabalho de Doutoramento exactamente?
Neste meu trabalho eu pretendo demonstrar que aquilo que é considerado “estratégico” , ou como parte integrante da estratégia global de uma organização ou empresa, não é algo de objectivo, evidente aos olhos de todos os seus membros. Pelo contrário, o que é “estratégico” para alguns membros da organização pode não o ser para outros. Por outro lado, também pode passar a ser considerado uma dia como “estratégica” uma acção que anteriormente teria sido considerada como periférica à actividade da empresa, ou puramente operacional. Tudo depende das percepções dos diversos actores envolvidos e de uma permanente negociação entre estes, e da evolução das diversas forças em jogo.
Uma das coisas que eu chamo mais a atenção tem a ver com o facto de que esta “rotulagem” daquilo que faz parte da estratégia ou não, pode depender tanto de factores racionais e lógicos, como de questões afectivas. Porque os empresários, antes de serem empresários, também são pessoas. Tudo isto é ainda mais evidente numa organização nos seus cinco primeiros anos de existência, e que é formada a partir de vontades independentes, de diferentes pessoas e empresas, com perfis diversos. Um exemplo deste tipo de organização é uma nova rede formal de empresários, como é o caso da CCIFP, e que constitui o caso de estudo único da minha tese.
Que características vê na CCIFP que mereçam que esta constitua um caso de estudo de Doutoramento em Gestão e Estratégia?
A CCIFP, sobretudo durante este período de criação, desenvolvimento e maturação que foram os primeiros cinco anos de existência, constitui um caso extremo daquilo que os maiores especialistas em Estratégia têm vindo a chamar sucessivamente de “organização pluralistas”, “sistema de acoplagem lassa” (um dos meus palavrões favoritos), ou ainda de “anarquia organizada”. De maneira resumida, quer isto dizer que se trata de uma organização cujos objectivos e missão finais não se encontram pré-determinados, em que as tecnologias utilizadas são flexíveis, e em que os participantes envolvidos não são sempre e necessariamente os mesmos.
Na CCIFP, existem membros que entram, alguns que saem (muito menos do que os que entram), e membros que saíram mas que depois voltam e já não voltam a sair. Com o seu crescimento espectacular ao longo destes cinco anos, a topografia do corpo de associados evoluiu muito, tal como os seus principais eixos estratégicos, sem que nunca a sua identidade , ainda que cronicamente “híbrida”, nunca tenha entrado por um caminho de descaracterização.
O que quer dizer com essa afirmação, de que a CCIFP possuiu uma identidade “híbrida”?
É muito simples. A história da CCIFP tem sido um constante jogo de negociação, mais ou menos explícito, entre diferentes lógicas institucionais. Por um lado, ela segue uma “lógica de serviço”, no sentido em que ela funciona parcialmente como uma empresa privada, prestando serviços concretos às empresas. É assim que ela tem podido existir sem quaisquer subvenções estatais, com um orçamento baseado exclusivamente das cotizações dos seus membros e da facturação resultante destes serviços.
Mas a CCIFP não pode ser classificada como uma “empresa” porque ela também assume uma “lógica de utilidade pública” dos seus associados, representando-os junto das autoridades públicas em Portugal e França, funcionando como um grupo de influência. Por outro lado, e não raras vezes, a CCIFP é solicitada pelas autoridades públicas para lhes prestar serviços… de interesse público! Por fim, a CCIFP funciona como uma “lógica de afinidade”, ou seja, responde a uma necessidade humana fundamental que é a de estarmos em contacto social com outras pessoas que se nos assemelham. Neste caso, jogam aqui duas afinidades: a afinidade empresarial/profissional (encontrar outros empresários como nós) e a afinidade “portuguesa” – conhecer outros portugueses, luso-descendentes, ou simples “lusófilos”, como nós.
A diversidade e a pluralidade é qualquer coisa de genético no seio da CCIFP. Basta reparar na sociologia dos empresários que compõem o seu grupo de associados: empresários de Portugal que querem vir para França, empresários franceses que querem ir para Portugal, empresários franceses mas de origem portuguesa (luso-descendentes), empresários franceses que nunca estiveram em Portugal mas que mantêm relações de negócios com empresários da comunidade portuguesa de França, etc, etc..
Essas três lógicas institucionais existentes dentro da CCIFP de que fala são concorrentes ou complementares entre si?
São ambas as coisas. Por isso mesmo é que tem sido necessário sabermos manter um equilíbrio. Também por esse motivo é que é tem sido mais difícil do que numa empresa, por exemplo, definir o que é “estratégico” e o que não é, sem que haja lugar a uma negociação permanente mais ou menos implícita no seu seio.
Pode dar-nos um exemplo?
Peguemos no exemplo da Liga CCIFP/Fidelidade de Fut5, ou do GP de Karting. Tanto uma como a outra actividade são exemplos exemplo de uma aliança natural – com sucesso comprovado - entre uma lógica de afinidade e uma lógica de serviço. Duas actividades lúdicas extremamente apreciadas pela comunidade portuguesa de França – inclusivamente os empresários que dea fazem parte – são hoje regularmente organizadas pela CCIFP. Mas o formato adoptado faz com que a lógica de serviço se mantenha presente: trata-se de um campeonato entre empresas, associadas da CCIFP, que constituem equipas compostas por colaboradores seus, ou de outros membros da CCIFP.
Os negócios continuam a ser a lógica predominante. Estas actividades têm por fim último, por um lado, de consolidar o espírito de equipa dentro das empresas, e por outro lado, o de promover os contactos pessoais entre profissionais para potenciar oportunidades de negócio entre as empresas. A afinidade é que serve os negócios, e não o contrário. Se estas regras rígidas de participação não estivessem presentes, a CCIFP correria o risco de se descaracterizar, e poderia deixar de ser uma Câmara de Comércio e passar a ser uma associação cultural, desportiva ou recreativa. Nesse caso, estaríamos perante um caso em que as duas lógicas entrariam em conflito.

Quer isto dizer que a CCIFP não é concorrente de nenhuma associação cultural ou semelhante, de portugueses em França?
Exactamente, não é, e só seria se se descaracterizasse. E é isso que permite à CCIFP de manter uma rede de parcerias sólidas com as diversas associações portuguesas em França, dentro de uma lógica de complementaridade. Veja por exemplo a Cap Magellan, uma associação de jovens luso-descendentes criada hà quase vinte anos, e que procura fazer uma promoção da cultura portuguesa no Hexágono fora dos clichés habituais. A CCIFP e a Cap Magellan têm colaborado nesse domínio específico da cultura, porque na CCIFP não é uma associação cultural. Outro exemplo: a Confraria dos Financeiros de Paris, um clube de profissionais do sector financeiro e afins, que tem colaborado assiduamente na revista trimestral da CCIFP, na secção bolsas.
Um outro exemplo para terminar: a Academia do Bacalhau de Paris, a delegação francesa de um dos mais interessantes projectos associativos globais relativos à diáspora portuguesa. Muitos empresários, cujas sociedades contam entre os nossos membros, são “compadres” a título pessoal nesta instituição, cujos objectivos estabelecidos nos respectivos estatutos são de cariz social e caritativo, à semelhança de um Rotary Club ou de um Lyon’s. Mas não é uma associação empresarial nem mesmo um clube de negócios. As conversas sobre negócios são aliás estatutariamente proibidas durante as actividades dessa instituição.
Pode adiantar-nos algumas respostas que já tenha encontrado para a questão que se coloca para a sua tese?
Ainda é cedo para divulgá-las, até porque no âmbito do tipo de pesquisa que eu desenvolvo – de tipo etnográfico e interpretativo – ainda será necessário discutir, leia-se mesmo “negociar” os resultados com os participantes do meu estudo: os meus colegas de trabalho, os meus superiores hierárquicos, e um núcleo duro representativo de associados da CCIFP. Eu não parto do pressuposto que a realidade é algo que nos transcende a todos, mas ante que esta nasce de um consenso prático situado no espaço e no tempo. Eu próprio faço parte do meu objecto de estudo, e assumo um duplo papel de investigador e participante, na medida em que estive por dentro de todos os processos internos e externos da CCIFP ao longo dos últimos 3 anos. Está previsto que eu defenda a tese em princípio de Setembro de 2011. Nessa altura, eu proporei à nossa direcção uma divulgação oportuna dos resultados, utilizando uma linguagem menos académica e mais adaptada à linguagem corrente dos empresários.
Paris, 24 de Novembro de 2010
