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Zoom... Pedro Novo

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Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Pedro Novo é o director regional da Oséo Paris. Com apenas 31 anos, este jovem luso-descendente assume desde há um ano a liderança da delegação na capital francesa de uma das mais importantes instituições públicas de apoio fincanceiro ao empreendorismo e à inovação. Esta entrevista foi concedida na sequência da sua intervenção na sessão de informação "A Crise: Soluções Práticas para as PME", organizada pela CCIFP, em 30 de Junho.

Pode contar-nos em algumas linhas o seu percurso até assumir o seu actual cargo de liderança da Oséo Paris?

Com certeza. Então, começando pelo princípio, eu nasci em Paris, filho de pais portugueses, um proveniente da região do Algarve e o outro do Minho. Foi igualmente em Paris que fiz os meus estudos, antes de partir para Marselha, para estudar na business school local – a Euromed – depois daq ual integrei o Banco de Desenvolvimento das PME, na filial dessa mesma cidade. Estávamos então em 2001. Daí, passei para Aix-en-Provence, onde eu animava os dois ofícios da casa naquela época: a garantia sobre os empréstimos bancários e o financiamento junto das empresas.

De seguida, ao cabo de seis anos, integrei a direcção regional da Ile-de-France Oeste, onde eu tinha a responsabilidade do departamento de Haut-de-Seine, com uma pequena equipa de uma dezena de colaboradores, com a missão mais específica do financiamento, focalizado no financiamento-garantia. Até que, desde há um ano para cá, eu assumo a liderança da direcção regional de Paris da Oséo, na qual eu cubro, desta vez, as suas três missões: a garantia, o financiamento e a inovação. Dirijo uma equipa de cerca de 60 colaboradores, que representam o conjunto das funções da instituição. Temos três delegações na região Ile-de-France, num total de 230 colaboradores.


A aproximação entre o Banco de Desenvolvimento das PME e da ANVAR (Agência Nacional de Valorização da Investigação), que resultou na criação da Oséo, teve lugar em 2005. Fora de França, tem conhecimento da existência de alguma estrutura”mista” como a vossa, integrando simultaneamente financiamento, garantia, e consultoria para a inovação?

É verdade que a Oséo se caracteriza pela sua estrutura de certa forma atípica, sendo que o único modelo num país estrangeiro que se parece mais ou menos ao nosso é a SBA (Small Business Administration) americana. Em Espanha, o Banco de las Pymes, por exemplo tem igualmente uma função de garantia bancária que se parece com a nossa, mas não dispõe do leque de serviços anexos propostos pela Oséo.


Qual é o interesse de ter essas três funções juntas na mesma estrutura? Há que dizer que se tratam de três know-hows bastante diferentes…


Sim e não. É preciso ler a nossa estrutura tripartida, como uma cadeia de financiamento. Nós dirigimo-nos a um utilizador final que é o empresário, mas em momentos diferentes do ciclo de vida da sua empresa. Insto é, na ANVAR, falávamos-lhe no princípio do ciclo em projectos de inovação, referindo-nos a ferramentas de financiamento que são muito arriscadas, na medida em que o produto não foi ainda criado, que não sabemos se vai funcionar (tecnicamente ou em termos de mercado), e se ele é reembolsável em caso de sucesso. Se o produto não funciona, a empresa não reembolsa tudo. Um acervo tecnológico, mas não tudo.

A ANVAR oferecia avanços reembolsáveis. A Oséo Innovation tem sempre essa leitura de financiamento dos empresários. À leitura tecnológica, acresce uma atenção particular que é doravante assegurada sobre as repercussões business ligadas à invoação. E para além disso, havia a garantia bancária, ou de empréstimo que nós fazíamos numa fase mais madura da empresa, quer dizer, depois, quando o produto funciona, que propunha portanto o Banco do Desenvolvimento das PME, sendo que as três funções se encontram reunidas sob a marca Oséo.

 

 


Certos especialistas em inovação mencionam a existência em França de um “funding gap” no ciclo de vida das empresas inovadoras, causado por um sobre investimento – inclusivamente da parte do Estado francês – na investigação “pura” e de um sub-investimento na parte “desenvolvimento” e “marketing”. Qual é a sua opinião?

É toda a razão de ser do nascimento da Oséo. Em termos gerais, eu penso que podemos dizer efectivamente que a França, até agora, não fez o suficiente para colmatar esse “gap”. Este diz respeito a uma problemática muito particular, relativa aos fundos próprios. Trata-se de um problema essencialmente cultural. Quer isto dizer que os investimentos em fundos próprios existem, o que não impede infelizmente que sejamos menos receptivos ao risco na nossa cultura financeira do que os anglo-saxónicos, por exemplo. Constatamos em França que a existência de uma ortodoxia que é menos do “pagar para ver” do que do assegurar-se da capacidade da empresa para nos reembolsar. Somos um pouco mais receosos no que toca a correr riscos em relação aos empresários.

Foi aliás o que que constatámos, em 6 de Julho, no Fórum Apoio às PME Inovadoras, onde fizemos justamente um “fotografia” do financiamento dos fundos próprios, das empresas inovadoras, a exportação, etc.. Nesse evento, nós pusemos à volta da mesa todos aqueles que em França fazem investimento em capital próprio.

Ora, nós nos apercebemos que é preciso por isso favorecer esse tipo de investimento. Daí certas intervenções legislativas do Estado francês, tais como a Lei TEPA, a lei ISF, entre outras, que foram concebidas para canalizar, para concentrar energia e recursos financeiros para o financiamento dessas empresas financeiras.


Então, a seu ver, a Oséo foi criada no espírito de tentar colmatar essa lacuna?

Sim, o nascimento da Oséo procurava essa  filosofia de propor uma solução completa, num espírito de guichet único para os empresários, desde a ante-criação (ou por outras palavras, da ideia de empresa) até à sua venda, passando pela inovação, pelo internacional, etc., etc.
Assim, queremos estar presentes em cada fase da vida da empresa, com uma solução que permita acelerar o seu crescimento. Para isso, temos produtos mais ou menos estruturados, um produto que vai financiar os testes tecnológicos, de I&D, para ver se a tecnicidade de um produto funciona techniquement, o que a Oséo Innovation já faz.

Depois, podemos passar à “fase 2”, que é o desenvolvimento marketing e comercial do produto. Geralmente nòs securizamos a bancarização da empresa na sua fase de criação, durante três anos, garantndo os empréstimos bancários e depois co-financiando directamente as empresas ao lado dos banqueiros então instalados. Para além desse temro, a reflexão pode ser mais complexa, abordando assuntos relativos a fundos próprios a través de business angels ou das nossas parcerias com a Caisse de Dépôts.        


Que missões lhe foram atribuídas para a direcção de Oséo Paris?

A missão que me foi confiada foi a de fazer evoluir o posicionamento da Oséo no conjunto da sua linha de funções, e de colocar a marca Oséo no centro do mercado. Sobre fundações ólidas, que ofereciam um posicionamento reconhecido da Oséo em paros; a vontade eta de declinar com a mesma força o conjunto da marca em todas as nossas funções, tanto junto dos institucionais, como dos estabelecimentos bancários ou dos empresários parisienses quais quer que sejam .


Assumiu a direcção da Oséo Paris ainda antes do agravar da crise económica, observado a partir de Setembro de 2008… Para fazer face a esta, o Plano de Relance francês previu um total de 10 mil milhões de Euros mobilizáveis pela Oséo em termos de garantias, à escala nacional. Qual foi o efeito da crise na estratégia da vossa instituição para a cidade de Paris desde então?

A crise, como disse Christian de Boissieu aquando da sessão de informação organizada pela CCIFP em 30 de Junho último, em que eu também participei, é um drama mas também uma oportunidade para dar a conhecer melhor o fundamento da nossa instituição. Isto no sentido em que os meios importantes que foram dados à Oséo – os tais 10 mil milhões de Euros que referiu – para acompanhar os empresários franceses na sua problemática de financiamento e de crescimento num contexto de crise, temos de os utilizar da melhor forma possível.

Face a essa crise que é dura, nós dispomos de meios sólidos e robustos para sermos verdadeiros motores de acesso ao crédito para as empresas confrontadas com dificuldades conjunturais.


Aquando da conferência sobre a crise económica, organizada pela CCIFP que acabou de mencionar, indicou que a Oséo Paris já havia garantido 200 milhões de Euros desde Janeiro de 2009, num período de apenas cinco meses. Quais são os sectores que foram mais afectadas?


Há de tudo. Para começar, As empresas mais abrangidas foram as de comércio (restauração, distribuição, prêt-à-porter…). Estas empresas têm balanços relativamente leves em termos de fundos próprios En contraprtida, elaz recorrem maioritariamente a financiamentos de curto impotantes, e . Elas vivem em grande medida num contexto de curto prazo, sendo por isso as mais expostas a um recuo da parte dos banqueiros


Esses 200 milhões de Euros em garantias destinaram-se ou não prioritariamente a empresas em perigo de subsistência?

Para que se compreenda bem, a quase totalidade dos projectos acompanhados desde Janeiro de 2009, ligados a esses 200 milhões de Euros provavelmente não teriam sido bem sucedidos sem o nosso apoio de garantia. Desses 200 milhões nós atribuímos 30 milhões para empresas em situação degradada mas viável ou com dificuldades conjunturais relacionadas com a crise. Os restantes 170 milhões foram mobilizados parao resto do leque das nossas intervenções, a saber, transmissão de empresas, internacionalização, inovação, etc.. Importa lembrae que a principal missão da Oséo é acompanhar e favorecer a emergência de novos líderes de mercado nos seus respectivos segmentos, apoiando as empresas que inovam e que exportam.

 

 

 

Quando fala de “inovação”, não se refere apenas à inovação tecnológica, não é verdade?

Exactamente. Para a tecnologia e a R&D pura no sentido próprio do termo, nós temos as nossas actividades Oséo Innovation sob a forma de avanços reembolsáveis. Isto representou mais de uma dezena de milhões de Euros atribuídos em Paris. Em contrapartida, a nossa ideia de inovação é precisamente democratizar a inovação, libertar as energias. A nossa mensagem central consiste em dizer que “inovar” não é qualquer coisa de inacessível: é desde já começar por vender o seu produto de maneira diferente. Isto pode ser muito simplesmente fazer uma evolução marketing do seu conceito, o que permitirá descobrir novos mercados e novos clientes. Inovar é verdadeiramente e antes de mais uma maneira de estar, um estado de espírito.


Você e Christian de Boissieu mencionaram no nosso seminário que tanto em França como em Portugal, não há muitas empresas “médias”, de “dimensão intermédia”...


Com efeito, partilhamos a mesma constatação: não existem suficientes grandes PME em França. Ao contrário do que se passa por exemplo, na Alemanha, onde as empresas intermédias representam a base da capacidade exportadora do país. O lobbying levado a cabo para que fossem reconhecidas as empresas de dimensão intermédia como destinatárias dos serviços da Oséo, surgiu precisamente dessa constatação. Isto foi uma vitória nossa muito recente. Mas repare, demorou anos! É verdade que o Presidente François Drouin, sob impulsão de Christine Lagarde diz regularmente “é preciso encontrar as pequenas pepitas que serão as grandes PME de amanhã em França”. Elas serão os grandes grupos franceses, leia-se internacionais. Precisamos de conseguir regenerar o mercado francês com futuros grandes grupos,  apartir da emergência de PME e mesmo de micro-empresas.


O Fundo Unitário Interministeral (FUI), de 600 milhões de Euros, criado pelo governo francês para o desenvolvimento dos Pólos de Compettividade, será em breve entregue à gestão da Oséo. Quais são os seus planos e expectativas para a acção da Oséo para os Pólos existentes em Paris?

Essa passagem de testemunho deverá efectivamente acontecer durante o presente ano, ainda que não possamos precisar quando. A direcção regional da Oséo Paris terá a seu cargo alguns Pólos de Competitividade, a saber, o Pólo Finança Inovação, o Cap Digital e o Medicen. A governance ainda deverá ser definida, sendo que deveremos um lugar na administração dos Pólos, assim como a gestão administrativa da entrega das ajudas de Estado destinadas aos mesmos.

Tudo isto corresponde a uma lógica que continua a ser a mesma: queremos simplificar a organização do acompanhamento público e para-público das PME e das micro-empresas que inovam e que exportam. Nessa lógica, não me parecia inoportuno reforçar a aproximação os know-hows que existiam, desta vez de maneira institucional,  ereforçando o papel da Oséo nos Pólos de Competitividade.


Na sua comunicação institucional, a Oséo realça a existência de parcerias com outras instituições. Em que ponto se encontram estas, no que toca às Câmaras de Comércio e Indústria?


Essa pergunta vem a calhar porque, precisamente, nós oficializámos muito recentemente a assinatura da Convenção de Cooperação entre Oséo e a CCI de Paris. Num serão em presença dos nossos dois Presidentes – François Drouin e Pierre Simon, respectivamente – reuinindo todos os colaboradores de terreno das duas instituições.

Esta convenção consolida assim as nossas relações, já bastante eficazes e complementares. Isto, por exemplo, de maneira a que os colaboradores das duas instituções estejam suficientemente à vontade para lidar com os produtos e serviços de uma e de outra.


E com as câmaras de comércio bilaterais?


A nossa relação com as CCI bilaterais inscreve-se na estratégia recentemente formulada pela Oséo, de lançar-se em força na cena internacional. Criámos uma direcção internacional, que está a cargo de Alain Renck, que animará todas as relações com as câmaras bilaterais e assegurará a promoção da Oséo no plano internacional.


A CCIFP desenvolve desde a sua criação os contactos e os negócios entre a França e Portugal. Por outro lado, no seu plano estratégico para 2009-2010, nós prevemos alargar o nosso raio de acção para Angola e Brasil. Neste quadro, que lugar haveria, a seu ver, para a criação de eventuais sinergias entre a CCIFP e a Oséo?


Concretamente, poderíamos começar por apresentar a  panóplia alargada de serviçose produtos que a Oséo pode oferecer aos empresários que , que desejem ir desenvolver a sua actividade em Portugal, em Angola, ou no Brasil. Mas há uma diferença entre esses três mercados, pois nos efectuamos uma clara distinção entre a Europa e o “resto do mundo”, no nosso catálogo de produtos. Temos por exemplo um produto em parceria com a Coface, chamado o “Fasep”, que permite garantir os investimentos em fundos próprios na criação de uma filial em Angola ou no Brasil, porque é fora do espaço europeu. É o único caso onde nós garantimos uma empresa e não um banco. Por outras palavras, eu digo a uma empresa que se ela fracassa em Angola, ela recuperará ainda assim 50% do que ela investiu.

Para além solução específica para os mercados fora da Europa, nós temos por exemplo os empréstimos participativos para a exportação com a Ubifrance, os fundos de garantia internacional, ou ainda o Contrato de Desenvolvimento Internacional, temos os financiamentos tradicionais, temos os investimentos em fundos próprios, e ainda os financiamentos tradicionais em fundos próprios… enfim, há todo um leque de possibilidades. Assim, podemos desde já explicar e apresentar à equipa de colaboradores da CCIFP a gama Oséo para o plano intenaciona, e preparar algumas manifestações junto dos seus associados para informá-los.

 

Paris, 15 de Julho de 2009