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Zoom... Philippe Clerc

Zoom... Philippe Clerc
Zoom... Philippe Clerc
Neste espaço pretendemos dar a conhecer experiências, vivências empresariais, sociais, culturais e económicas.

Uma entrevista por mês, com profissionais de diferentes áreas. Empresários, gestores, políticos, professores, entre outros, deixarão o seu contributo intelectual de forma assertiva.

Philippe Clerc é o director de inteligência económica, inovação e TIC, na Assembleia das Câmaras Francesas de Comércio e Indústria (ACFCI). Com uma carreira invulgar de quase trinta anos, construída entre a monitorização científica e tecnológica, a defesa nacional, o associativismo empresarial e as políticas públicas, o seu nome está hoje directamente associado à "inteligência económica", esse casamento entre o know-how do mundo serviços de informações e segurança com o a estratégia empresarial, e à sua consagração enquanto política pública em França em 1994.


Como é habitual neste nosso espaço de entrevista, começaria por lhe pedir para nos contar em algumas linhas o seu percurso profissional até hoje.

Eu comecei a minha carreira nos anos 1980. Desde então, tenho seguido um percurso diversidicado, entre a consultadoria em prospectiva, em vigilância tecnológica e estratégica, as estratégias e políticas públicas, a segurança e a defesa nacional, o desenvolvimento territorial e local.

Comecei num gabinete de advogados alemão em paris, onde eu já fazia uma vigilância jurídica sobre países como a China ou Taiwan, o que nessa altura era ainda raro. De seguida, trabalhei num think-tank francês, o Centro de Estudos de Sistemas e Tecnologias Avançadas (CESTA). Aí, exerci várias funções no âmbito da monitorização em torno de grandes questões de prospectiva tecnológica.

Depois, fundei duas empresas que dirigi durante cinco anos, especializadas na Asia: desenvolvimento internacional e gestão da exportação ao Japão, Taiwan e Coreia. A partir da queda do Muro de Berlim, estudei por exemplo para o Ministério da Investigação Scientífica francês as  estratégias das grandes sociedades japonesas e coreanas sobre os novos mercados dos países de Leste na Europa.

Em 1992, integrei o Comissariado Geral do Plano, um serviço do primeiro-Ministro. Nesse âmbito fui nomeado relator-geral do Relatório martre, que permanece ainda hoje a grande referência da inteligência económica enquanto política pública em França, desde a sua publicação em 1994. Depois, em 1995 integrei o Secretariado Geral de Defesa Nacional (SGDN), outro serviço do Primeiro-Ministro francês, como chefe da missão Competitividade & Segurança Económica.

Desde 1998, entre outras coisas, assumo a direcção da inteligência económica e das tecnologias da informação na Assembleia das Câmaras Francesas de Comércio e Indústria (ACFCI).


O senhor é consensualmente considerado uma das personalidades centrais da escola francesa de “inteligência económica”, a qual, mais do que um conjunto de práticas e de profissões, permitiu à França de desenvolver uma verdadeira política pública desde há 15 anos. Pode explicar aos nossos leitores em que consiste exactamente esta "inteligência"?

Eu creio que não haverá nada de melhor para a definir do que citar a difinição que estabelecemos no Relatório martre, em 1994, e que continua a ser a base da estratégia pública de inteligência económica francesa, e que é a seguinte: “A inteligência económica pode ser definida como o conjunto de acções coordenadas de pesquisa, tratamento e distribuição de informação útil aos actores económicos visando à sua utilização para efeitos estratégicos. Essas diversas acções são levadsas a cabo de forma legal com todas as garnatias de protecção necessárias para a preservação do património da empresa, nas melhores condições em termos de prazos e de custos. A informação útil é aquela que é necessária para os diferentes níveis de decisão da empresa ou da colectividade, para elaborar e realizar a estratégia e as tácticas necessárias para a melhoria da sua posição no seu ambiente competitivo.”

Trata-se de articular a vigilância (ou monitorização), a segurança e a influência.


Há que dizê-lo, trata-se de uma definição algo longa e complexa…

Sim, eu preferiria dizer que é longa e técnica. Mas foi preciso proceder assim. Isto, porque na altura, para impôr esta nova forma de pensar. Precisávamos de nos dirigir a um universo profissional dos “veilleurs”, dos especialistas da bibliometria e da informação especializada que era então dominada em França nas profissões ligadas à gestão de informação. Era preciso também ultrapassar estas competências preservando as suas técnicas para adaptá-las à inteligência dos novos desafios.


Porquê?

Porque a vigilância tecnológica dos anos 1980, as políticas públicas então levadas em França em matéria de informação científica e técnica já não respondiam aos desafios estratégicos do pós-guerra fria.

 

 

 

Quinze anos passaram desde o Relatório Martre. Pensa que essa definição permanece actual?

Sim, porque ela contem todos os ingredientes da práticas das empresas e das organizações que desenvolvem estratégias no universo económico e social globalizado: o domínio da informação nas suas três vertentes principais: vigilância, segurança e influência, dimensões fundamentais para  estratégia de uma empresa, actores de um território ou os decisores das estratégias nacionais de inovação e de influência. Convém hoje em dia enriquecer as práticas pela via de uma maior agilidade do método para melhor responder às situações de decisão num universo imprevisível. Convem igualmente insistir na antecipação.


Nessa definição, fala de um domínio da informação “útil para os actores económicos”. Dito isto, qual é a diferença entre a inteligência económica de uma empresa e a simples gestão eficiente dasua informação administrativa, por exemplo?


Se considerar apenas esse aspecto da definição, não encontrará, de facto, nenhuma diferença. Mas eu penso hoje que, na verdade, nós não insistimos suficientemente no facto de que precisamos de uma abordagem de “inteligência do mundo” ou “inteligência das situações.

Esta expressão quer dizer muito simplesmente que, nos dias de hoje, é essencial compreender a complexidade do mundo. E é isso que, a meu ver, no cerne da diferença entre a inteligência económica e uma simples gestão eficiente da informação numa organização. As Câmaras de Comércio e Indústria da região da Bretanha, em França, organizaram-se em rede para que cada uma delas pudesse observar em permanência uma fileira de actividade da região (evolução dos concorrentes, dos modos de consumo, das tendências de mercado…) e produzir regularmente para as empresas análises partilhadas sobre cada um dos mercados seguidos.


Por outras, palavras, é preciso optimizar o domínio da informação de maneira adaptada à situação concreta com que o decisor de uma organização se depara, é isso?

Sim. Hoje, mais ainda do que ontem, nós precisamos de informações. Mas não em termos de quantidade. A gestão da informação é cada vez menos um problema, graças ao espectacular desenvolvimento das tecnologias da informação. O que nós precisamos é de informação utilizável para tomar a boa decisão. Isto é todo um know-how, que resulta também de uma atitude de curiosidade e de abertura de espírito, de capacidade de inteligência pela análise de informações recolhidas e de muita organização.


Mas poderemos afirmar que uma empresa que decide seguir uma verdadeira abordagem de inteligência económica – isto é, de controlo eficiente da informação adaptada às circunstâncias e orientada mais para a qualidade que para a quantidade – fará com que essa empresa tenha um melhor desempenho que as outras?

Não necessariamente. Falta ainda um aspecto essencial para que uma abordagem de inteligência económica traga os seus frutos no seio de uma organização ou de um território: é uma verdadeira cultura de organização. Por outras palavras: saber trabalhar em equipa e trabalhar em rede. E isto aplica-se não somente nas empresas, mas também à escala dos territórios. A profissão dos fabricantes de óculos do Jura (na região da Franche Comté) desenvolveu uma plataforma colaborativa securizada de partilha de serviços e de informação para poder se desenvolver nos mercados internacionais e melhor responder à concorrência.


Quer dizer que a inteligência económica não está reservada unicamente às organizações e aos seus colaboradores, mais também a todo um território regional ou nacional?

Exactamente, é aquilo que se chama com frequência em França, de “inteligência territorial” ou “inteligência regional” em Marrocos. O Estado em cada região define a sua estratégia de inteligência económica qu’elle põe em marcha associando as redes de actores do desenvolvimento em função das suas competências. As CCI estão associadas a essas acções. Elas intervêm junto dos empresários para os acompanhas nos seus esforços de monitorização e de inteligência económica.


Voltamos à questão de saber trabalhar em equipa. O lema da CCIFP, por exemplo, é “La force de l’alliance”…

No âmbito das relações entre empresas e empresários, e mais particularmente entre PME e micro-empresas. O cluster francês Frutas e Legumes, baseada em Avignon implementou uma plataforma de vigilância e inteligência económica ao serviço dos actores do cluster  cujas empresas, a fim de seguir os temas estratégicos para o seu desenvolvimento (inovações agro-alimentareres, tendências de consumo, regulamentação.

 

 

 

Implementar um sistema de inteligência económica, territorial ou de empresa, implica necessariamente uma formalização dos processos, ou uma aquisição de novas ferramentas? A maioria das PME dificilmente teriam o tempo e os recursos para o fazer…

Não, não é necessária uma organização complicada. Em vez disso, é preciso pensar numa organização de geometria variável. Para essas empresas, na maior parte dos casos, a inteligência económica é muito simples: é a inteligência do dirigente. O que não quer dizer que este não precise de identificar as suas fontes de informação. E nas PME e micro-empresas, essas fontes resultam das suas redes pessoais. E são as Câmaras de Comércio e Indústria (CCI) e as associações profissionais assumem um papel fundamental na mobilização destas redes.

Os pequenos comércios, cujos interesses são sobretudo locais, poder 7amos sentir-nos tentados a dizer que estes não têm necessidade de ter essa visão “global”, essa “inteligência do mundo” de que falou há pouco…


Pelo contrário. Por exemplo, nas ilhas Caraíbas e no Estuário Amazónico (próximo do Brasil), nós organizámos com as nossas CCI locais (Martinica, Guadalupe e Guiana) seminários de inteligência económica, para as empresas locais que se deparam com problemáticas de mercado muito particulares. Para as micro-empresas da maderia, do agro-alimentar, e das actividades locais, o “mercado” é, na verdade, o cliente, e nada mais. Os sistemas de vigilância e monitorização consistem assim em observar em permanência o mercado através dos olhos do cliente.

Dou-lhe outro exemplo. Para redinamizar zonas comerciais do centro da cidade em Nantes ou em Saint-Nazaire, as CCI ajudaram os pequenos comerciantes a diferenciar-se para atrair os seus clientes em relação à oferta das grandes superfícies. Recorrendo às técnicas de inteligência económica, de vigilância (cartografias de competências, análises de necessidades…) grupos de trabalho determinaram que os know-hows dos decoradores de cabines de navios dos estaleiros navais podiam ser utilizados para  a preparação de montras das lojas e assim diferenciar melhor a oferta junto de novos clientes.


Um trabalho de atracção de clientes é normalmente associado com o campo do marketing...

Sem dúvida, mas também de inteligência económica. O marketing vai concentrar-se na análise do ou dos mercados. A inteligência económica permite, por sua vez, alargar o campo de observação. Por exemplo, o comerciante de sapatos obtêm normalmente informação a partir da comunicação quotidiana com os seus fornecedores… Ele é, de certa forma, dependente dessa única fonte de informação. Interessar-se pelas práticas adoptadas noutros sectores de actividade pode ser uma fonte de inovação comercial rentável. E é aí que as CCI assumem um papel central, trabalhando para a comparação de boas práticas comerciais e de inovação de diferentes sectores de actividade.

No fim de contas, a inteligência económica para as PME e as TPE poderia mesmo resumir-se a três palavras: comunidade, sinergia e inovação, com o fito de “criar”, de descobrir novos nichos de mercado.


Numa entrevista anterior para este nosso espaço Zoom, o director executivo da AIP-CE, Dr. António Alfaiate, disse sobre os empresários em Portugal que “o mais difícil era sentá-los à mesa”…

Ele tem razão. E, pode acreditar, isso não se passa só em Portugal, mas também em França. É algo que é perfeitamente compreensível. Para além dos aspectos culturais das nossas apetências à cooperação, é no funcionamento em rede quese coloca o problema do intercâmbio e da partilha em torno de know-hows e de informações estratégicas, tanto aquelas que é preciso proteger como aquelas que se podem partilhar e cruzar. A inteligênca económica oferece portanto técnicas para identificar as vulnerabilidades da empresas e proteger os seus activos essenciais.

Na rede das CCI francesas, nós identificámos a função e as competências de animador de comunidades (coach). O seu saber externo, vai permitir de melhor identificar as questões e operar as mediações baseando-se nos perfis e na cultura de mercado ou empresarial dos actores que participam nessas comunidades.

 

Paris, 19 de Outubro de 2009